Sobre metas e promessas de ano novo

Hoje estou cumprindo uma tradição de ano novo: arrumando meu Evernote. Tenho agora 2221 notas. Há coisas pessoais, profissionais, de estudo. Há 2 anos tentei construir a biblioteca de ebooks lá. Não funcionou e já vi que não vai ser hoje que eu vou desfazer a biblioteca mal feita que ainda está lá.

Há traços de GTD na organização. Fiz com o GTD o que faço com todo plano para dominar o mundo que me agrada: estudei, apliquei, e depois reformulei a meu gosto. Sei que os entusiastas do plano dizem que esse terceiro passo é o clássico de quem não entendeu, afinal “o método é perfeito e…”

O que mais me intrigava no método eram os níveis. Tem o “faça agora” que realmente é muito legal. Tem as “tarefas de hoje” e as “próximas tarefas”. Aí já me sinto fazendo malabarismo.  E ainda tem as metas (1 a 2 anos), visão (3 a 5 anos) e propósito (o que meus netos vão lembrar de mim 15 anos depois da minha morte). Dramático. Eu escrevi um rascunho, um tipo de gaveta de sonhos inconfessos. O método estabelece prazos para abrir essa gaveta e criar projetos / tarefas para, passo a passo, transformar uma meta futura em uma atividade do presente. Eu abria a gaveta e olhava com o objetivo de me lembrar quem eu sou e do que eu gosto.

Mas eu não fiz nada? Fiz, sim. Eu ainda estou tentando elaborar em palavras o meu modo de agir. Até para me ver agindo. É como se eu seguisse o caminho por instinto, e não com mapas de navegação. A imagem que me veio hoje é a de uma grávida. Os sonhos não estão na lista “Talvez / um dia”, estão na lista de realidade em gestação.

Em 20 de dezembro de 2016 NUNCA JAMAIS EM TEMPO ALGUM passaria pela minha cabeça que um ano depois eu teria pedido dispensa de cargo, transferência de setor, teria feito vestibular, entrado na faculdade de Letras, já estaria aprovada no primeiro período e estaria pagando a fatura do cartão que veio com as passagens aéreas da viagem que faremos ano que vem. Eu sabia que eu faria essas coisas. Elas estavam em gestação e os passos que dei para transformá-las em realidade não foram conscientemente planejados. Muitas mudanças nasceram da crise. Meu posto de trabalho anterior era bom. Fiz coisas de que me orgulho. Encontro servidores na rua que lamentam o fim de um programa em que eu trabalhei. Mas as coisas mudam e eu estava indo trabalhar sem vontade. Foi preciso uma crise para que eu colocasse sobre a mesa os pós e contras. Se eu fosse planejar, eu teria feito “networking”. Não fiz, não sei fazer, não me orgulho disso e eu verdadeiramente me surpreendi ao receber a primeira proposta de trabalho – e de ver gerentes brigando pelo meu passe. Quer dizer, eu fiz networking, só não sabia que tinha feito 🙂

Ainda no posto anterior, e já desestimulada, comecei a estudar para (outro) concurso público. Só que tem um problema: eu não escolho concurso pelo que ele paga, mas sim pelo tipo de serviço. E os que pagam mais não me interessam. Acho que acabei de descobrir de onde veio a “chavinha da motivação” que move minha filha. Eu sou capaz de estudar Física felizona se for para ter acesso a algo que me apaixone. Ser Auxiliar Administrativo na PGM ou no TCM não me motivam. Sim, já tentei a técnica de colar no armário do guarda-roupa um contracheque deles ao lado do meu, mas não funcionou. Como disse Tim Maia, “não quero dinheiro, eu só quero amar”. Foi só mudar o foco de um concurso de nível médio qualquer para outro de nível superior em Letras, que tudo mudou. Primeiro eu teria que me formar em Letras, né? E antes disso, eu teria que estudar Física e Química felizona. Fiquei felizona. Mas faculdade aos 39 anos? Isso impôs uma dificuldade extra. Seria recomendável colocar o nome de uma Federal no currículo. “Ela é velha. Mas é UFF”.

Na gaveta dos sonhos inconfessos, a faculdade estava ligada a outro: o segundo filho. Eu não queria estudar com filho pequeno. Eu sei que todo mundo faz isso, eu só não queria. O segundo filho era a única coisa que me fazia querer mais dinheiro na conta: eu vivo bem com uma filha. Se tivesse outro, prejudicaria a que eu já tenho e o que ainda não existia mas já estava prejudicado, pobrezinho. Foram quase 20 anos resistindo às pressões da família. Chegou um ponto em que a família começou a me desestimular porque eu dizia que ainda era um plano futuro – foi quando eles disseram que eu já estava velha.

Com a faculdade, disparei a contagem regressiva para mudar de posto de trabalho. Aí as coisas ficaram muito doidas: quando dei por mim, estava preparando as condições para antecipar essa saída. De 4,5 anos, passou para 2 anos: assim que eu terminar de pagar minha hipoteca. Essa adiantada no cronograma me deixou ainda mais desconfortável no trabalho, até o dia em que, navegando a esmo na net, bati os olhos na frase “afaste-se de pessoas negativas”. Cansei de todo santo dia me perguntar se estava sendo moralmente assediada ou incompetente. Amigos e família me diziam que eu não era incompetente, mas eu não conseguia mais trabalhar com confiança, os problemas se avolumavam, eu não tinha mais espaço de criar. Sou incompetente? E se eu meter a mão na porta do GRH e perguntar “vocês me ajudam a arranjam um lugar novo pra mim?”, o que acontece? O que aconteceu? O chefe do GRH apontou uma mesa do outro lado da sala. “Ali. Quer?”

Claro que estou em lua de mel com os novos colegas de trabalho. Eles sabem que estou estudando para sair, mas não estou mais contando os minutos. Descobri que tenho muitos outros colegas de trabalho fazendo faculdade depois de velhos. Estou indo trabalhar com vontade. Estou aprendendo, estou contribuindo. Ser feliz no trabalho pra mim é só isso, não precisa ser a felicidade de filme e livros divertidos. Claro que tem problemas, felicidade não é ausência de problemas. Felicidade é ausência de dor.

Planejei encerrar o texto com “é por isso que não faço metas para o ano novo”, mas o pior é que faço. Em 2018 quero uma casa mais limpa e arrumada. E já estou enxergando como é que eu funciono: na gaveta dos sonhos inconfessos, tá lá: ajudar meu marido a entra na faculdade. Meu marido é o dona de casa, então é óbvio que eu preciso elevar minha qualidade como dona de casa. 🙂

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Dispensada

Pedi dispensa do cargo comissionado. No dia em que fui ao GRH pedir dispensa e transferência eu me senti tão atordoada como no dia da aprovação no vestibular. Me ofereceram um posto imediatamente. Me abriram as portas da prisão.

Ainda não fui transferida. Mas meu cargo já foi, pra outra pessoa, claro 🙂 Se não me transferirem amanhã, tranferir-me-ei eu mesma.

É a crise dos 40 que se aproximam. Estou demolindo tudo o que estava errado na minha vida.

A lista

De tempos em tempos (ou ultimamente, a cada 5 minutos) surge uma denúncia contra o machismo, a sociedade patriarcal, as mulheres publicam relatos de casos de constrangimentos ou coisas piores.

Algumas vezes eu até tenho uma historinha real pra contar mas não vejo benefício algum em publicar uma coisa que me machucou numa hashtag. Aliás, pra mim, a gente só tem como mudar o futuro educando as crianças. O presente é caso perdido. A gente trabalha para mudar o futuro das nossas netas.

Essa reflexão veio na minha avaliação de Informática. Na hora de inventar uma lista de funcionários para criar a folha de pagamento, eu, preocupada com as terríveis fórmulas do Excel, digo, do Calc, chamei na mente a lista mais fácil, a que não exigisse uma sinapse sequer pra montar. Resposta da mente: F1 2017 drivers entry list. Segunda resposta da mente: o avaliador vai olhar seu nome e vai achar que você pediu ao seu marido, seu colega de trabalho ou pagou a algum cara pra fazer.

Minha filha joga esses jogos online, passa horas matando gente no computador. Perguntei se tem algum problema com outros jogadores meninos. “Não”. Falei que já li sobre isso, que os garotos são hostis quando olham um nick feminino. Ela me disse que ninguém usa nick feminino. E que no headset elá está falando com os amigos e amigas dela, colegas de escola e curso e tals. E vida que segue.

Decidi mesclar nomes de pilotos, escritores e personagens de séries. E vida que segue.

 

Um pesadelo e um sonho de infância

“Não, você não tem periondontite, gengivite, nem uma plaquinha bacteriana sequer. Mas, sim, você vai perder os dentes se não colocar um aparelho ortodôntico imediatamente.”

Um ano depois…

“Não, não tem espaço na sua arcada dentária. Vamos ter que extrair dois dentes.”

Conversando com minha ex-chefe, eu disse que, quando criança, achava que as pessoas perdiam os dentes aos 40 anos, era natural. Meus avós perderam, meus pais perderam. Mais tarde eu aprendi que se as pessoas visitassem o dentista com regularidade, poderiam não perder os dentes! Eu faço 40 ano que vem e a dentista me levou dois pré-molares. A ex-chefe teve problemas a vida inteira, reflexos de um acidente de carro na adolescência, e chegamos à conclusão de que  o natural é mesmo ficar banguela. Quem não quer ficar banguela vai se penitenciar na cadeira do dentista. E, se bobear, ainda perde um ou dois por falta de espaço.

*****

O sonho de infância: passar uma semana comendo sorvete! Eu ouvia as histórias de coleguinha que operou a amígdala e só podia se alimentar com sorvete. Minhas amígdalas são grandes. Grandes do tipo que quando eu chego na emergência com a garganta inflamada, a plantonista chama os colegas para admirarem a paisagem da minha garganta. Mas na minha vez os pediatras pararam de recomendar a cirurgia de extração de amígdala.

Durante o pós-operatório da extração de dente é recomendado comer sorvete para diminuir a dor e a inflamação da área. Todos os dias eu choramingava: tá inchado! Vai inflamar! Vai infeccionar! Preciso de mais sorvete!

O grupo das 4

É a etiqueta que eu coloquei no material de matemática, química, física e biologia. Eu não estou vendo o GP da Rússia porque eu rendo bem no estudo na parte da manhã, então me privei de prazeres e F1 nesse horário. Mas, batendo a cabeça no fichário pra aprender as G4 por osmose, ocorreu-me que, de McLata e tudo, 

O problema do sistema prisional brasileiro é que as pessoas estão cometendo crimes e sendo presas 🤔.

Tomei uns tabefes da corretora do Descomplica. O problema do sistema, me disse ela, é que ele não ressocializa os detentos. Ah.

Em domínio da língua e domínio do gênero textual me saí bem. Se eu receber um tema na prova contra o qual eu não me insurja a nota deve girar na casa dos 800 pontos.

Ah, a corretora disse que eu não uso as vírgulas muito bem. Malditas vírgulas!