Seguindo Ordens

Como desembarcar de um ônibus em segurança assim?

desembarque

Impossível não é, centenas de passageiros sobem e descem do ônibus assim, todo dia, toda hora. Velhos, deficientes e mães com criança de colo. Muitas vezes são eles mesmos que solicitam o embarque e desembarque. Nesse caso, o motorista comete infração se atender ao pedido. Mas já vi barracos homéricos dentro do ônibus causados pela recusa do motorista em atendê-lo, discursos odiosos calcados na máxima “você tá pensando que isso aqui é a Suíça? aqui não tem não pode, não”.

desembarca 2

Estamos a uns 50 metros do ponto final. É uma rua estreita e congestionada, por ali passam não apenas os ônibus que fazem ponto final nela, mas também outras linhas que seguem para a estação de trem. A rua termina na perpendicular com a rua da estação e o sinal ajuda a travar o trânsito. O ponto final deste ônibus fica exatamente no final da rua, debaixo do sinal. Podemos perder até 5 minutos para percorrer esses 50 metros. Ou podemos desembarcar nas circunstâncias retratadas acima.

Há cinco meses eu tive uma discussão com um motorista da linha. Toda manhã eu permanecia sentada, clicando em bichinhos saltitantes na tela do celular. Os passageiros desembarcavam e os motoristas me chamavam a atenção.

– Ponto final aí, dona.

E eu:

– Eu vou esperar o senhor encostar o carro na calçada, lá no ponto.

A conversa quase sempre acabava aí. Certa vez, enquanto eu olhava pra fora com cara de boba, o ônibus foi atingido por outro. Levei um sustão e comemorei a decisão de permanecer dentro do ônibus. Aquele poderia ser o dia em que eu diria “não vai acontecer nada!” para no momento seguinte, ser levada pro Albert schuebdsutygy pra ficar alguns meses internada esperando pra operar o fêmur.

Eu sou medrosa, sim. Eu enxergo mal, então tenho essa desculpa. Eu sempre me coloco na situação mais segura possível, pois boa visão e bons reflexos eu NÃO tenho.

Para meu espanto, a conversa continuava, algumas vezes, com o motorista muito aborrecido com a minha decisão de ficar dentro do ônibus. Diziam que o ponto final era ali e que eu TINHA que descer.

Há 5 meses eu tive uma discussão feia com um deles. Eu fui educada a não discutir. Eu mesma me saboto se me envolvo em discussão, a voz se altera, o pensamento se anuvia, o peito aperta e as pernas tremem. No entanto, eu jamais vou olhar para o outro lado quando me agridem moralmente, não vou fingir que nada aconteceu e meter o rabinho entre as pernas para evitar a discussão em que eu fatalmente serei (com sorte apenas) verbalmente surrada. Não confronto, mas também não fujo.

O motorista disse “não vai descer, não?”. Quando o caminho se liberou à frente, ele avançou até o ponto final e não abriu a porta de desembarque. E disse que ele não podia encostar naquela calçada e perder tempo para desembarcar passageiro porque era ordem da empresa.

E daí que é ordem da empresa? Ali é o ponto final, eu paguei para ir ao ponto final e eu queria desembarcar na calçada e não no meio do trânsito. A empresa não pode me negar isso e não pode punir o motorista se ele parar o ônibus junto à guia da calçada no ponto final. Ninguém tem que seguir ordem injusta.

Eu me sentia a mais mimada das criaturas enquanto pedia pra desembarcar no ponto final junto à calçada.

Ele gritou o fiscal: “posso ir?” E o fiscal: “pode, ué”. Ele olhou pra mim e disse “ele mandou sair, tô saindo. Ele MANDOU”. Eu meti a cabeça pra fora da janela e disse ao fiscal que o motorista não queria me deixar sair. O fiscal riu.

Ele me levou até o outro ponto, bem mais distante, chamou o outro fiscal e disse que eu estava criando tumulto e que se eu não saísse do ônibus iríamos os três para a delegacia. Eu queria ir à delegacia, mas o peso no peito, a garganta fechada e a perna bamba me informaram que meu desempenho seria sofrível. Eu não queria descer? Desci. O fiscal conversou um pouco comigo. Disse que ele queria sair daquele meio porque os colegas eram tudo… e balançou a cabeça, interrompendo a frase, desgostoso da vida. Era evangélico. Só de falar mal dos colegas já deve ter sido uma tristeza para ele. Ele me perguntou o que eu iria fazer. Eu, me sentindo mais fora da realidade do que nunca ao dizer que providência tomaria: “ligar para a Prefeitura.”. Ele me deu o telefone do RH da empresa.

Faz 5 meses. Sei porque ontem estava contando os exemplares da revista Língua Portuguesa na mesinha de centro da minha sala. Descobri quando encontrei uma banca de jornal no novo caminho. Passei a desembarcar no início da rua, onde não há congestionamento, onde os ônibus podem errar o ponto, parando antes ou depois, mas conseguem se aproximar da guia da calçada. Agora eu tenho que percorrer a rua toda a pé. Chego ao fim da rua junto com o carro que me deixou. No caminho, encontrei a banca (é a única nos meus caminhos), achei a revista. Uma, duas, três, quatro, cinco. Há cinco meses que mudei meu caminho para não ter mais problemas. Vários prédios da rua estão em obras, o congestionamento piorou bastante. Nem a empresa, nem a Prefeitura retornaram para informar o que eles tinham decidido fazer, ou não fazer.

Há cinco meses eu não conseguia sequer relatar essa história. Eu tinha que escrever, tinha que escrever qualquer coisa, pensei que para melhorar o meu humor, eu devia escrever sobre o que vejo de bom na rua. Vejo coisas boas quase todo dia, olho a paisagem com olhar de uma quase cronista. faltava só escrever, mas não, não conseguia escrever até… Hei!

O gatilho que me fez desembestar a escrever foi o vídeo da senhora falando o óbvio para a polícia (link), com uma placidez que eu teria que morrer e reencarnar umas 30 vezes para alcançar. Ela falava que ninguém é obrigado a cumprir uma ordem absurda. E eu me lembrei de tantas ocasiões em que a gente é pisado e quem pisa se despe de qualquer responsabilidade em seu ato, pois está simplesmente cumprindo uma ordem e a ele não cai bem, mas nem de brincadeira, pensar sobre o que realmente é essa ordem e quais as consequências.

Estão todos com raiva, com muita raiva, por muitas coisas. Escrevendo, tiro um pouco da minha raiva dentro de mim. Mas se a galera quiser juntar suas raivas e atirá-las em quem é responsável por tudo isso que está aí, pode ser… uma boa idéia.

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Desilusão, desilusãaaao

(No ritmo da marisa monte)

Na última sexta-feira, descobri que a Nostro Café de Bangu não serve mais cafés gourmet. Eu já desconfiava de que era a única pessoa do planeta que ia até o centro de Bangu para beber café gourmet (ou para beber café). Eles já fecharam e desfecharam 2 vezes. Agora, só espresso e capuccino de pozinho 3 corações.

Hoje descobri que o sebo de Madureira não compra mais livros didáticos velhos. Só vende. Aí eu, que estive lá hoje de manhã para comprar e vender, coloquei a terrível questão: se vocês só vendem, onde vão arranjar os livros velhos que eu compro? O dono do sebo respondeu “É”.

É? Isso não é resposta pra minha pergunta. A menos que “é” signifique “não sei”, ou “ninguém nesse planeta compra livro didático com mais de 2 anos, seria o mesmo que ir ao centro de Bangu pra beber café” ou “se eu te contar, terei que te matar em seguida”.

E eles não tinham Marley e Eu. Aí é demais. Preciso de um Irish Coffe duplo agora!

A casa de Muriqui alagou de novo. Dessa vez, perdemos fogão, geladeira e, creio, a tubulação de esgoto do primeiro andar está inutilizada.

A boa notícia é que eu, minha família e a família do meu cunhado estávamos em outra casa, das irmãs da minha sogra. Mas 2013 começou legal, entramos para a estatística de desalojados e com um baita prejú.

Muito pior está a situação em Caxias. O pessoal tinha que organizar mutirão pra jogar o lixo na porta do ex-prefeito pelos próximos 2 anos.

Problemas de desembarque (de novo)

E o motorista fez de novo. outra linha, mesma empresa. Parou em fila tripla, abriu a porta e me mandou desembarcar. Pedi pra que ele encostasse na calçada, mesmo que passasse do ponto. Ele respondeu como se eu tivesse pedido pra ele parar dentro da garagem da Prefeitura:

– Mas tá tudo parado! – e apontava o ônibus a cinquenta centímetros da porta, que “estava parado” se movendo lentamente, procurando espaço entre os veículos, procurando um clarão pra encostar na calçada, procurando tudo menos mulheres de salto alto e mochilão nas costas caminhando no meio da Avenida Presidente Vargas. 

Imagine se eu desembarco, vem uma moto e eu morro? Ontem mesmo eu conversava com minha filha sobre os problemas que nos atingem por acaso e os que nós provocamos. Imagine se eu “me morro” de maneira tão estúpida? Estúpidez foi a palavra que me veio à cabeça enquanto olhava a porta aberta e a cara do motorista pelo retrovisor.

Eu não disse mais nada. O coração foi na boca, imaginei que ia mais uma vez passear na Praça Onze (dois pontos à frente). Necessário informar que era um ônibus parador que trafega pela pista lateral da Avenida Brasil. A Fiocruz mandou pôr alambrado na beira da calçada para impedir aglomeração e fila tripla de ônibus em frente a seu prédio. Pois bem, esse mesmo motorista abriu a porta para desembarque em frente ao alambrado. As passageiras tiveram que se agarrar ao alambrado por uns 300 metros, com os veículos passando a 50 cm de suas bundas. Eram duas mulheres e três crianças, sendo duas de colo. Elas pediram ao motorista pra descer e saíram numa boa. Se elas podem, por que é que eu quereria o privilégio de pisar na calçada? 

O que é que eu poderia dizer? Argumentar? Não funciona. Discutir? Não funciona. Acionar a fiscalização? Não funciona. Tudo já testado e reprovado. O ônibus avançou um pouco mais, encostou na calçada, estacionou. E aí o motorista me olhou pelo retrovisor. Eu perguntei “o senhor pode abrir aqui?” Ponto, não era, né, muitas vezes eles se agarram ao meu senso de correção pra usá-lo contra mim e aceleram o carro até a parada seguinte. Ou a outra. Dessa vez, ele abriu a porta.

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Eu tô lendo o grupo de discussão de mães e pais com filhos (tem mãe e pai sem filho?) o pessoal falando de hiperatividade e das famílias que não controlam seus monstrinhos. Dá pra cabeça da gente não ir a mil por hora vivendo num ambiente desses? E se eu ponho freio , ou trava, nas minhas emoções (nem um pouco positivas ¬¬ ), eu não estou me prejudicando, minando minha capacidade de reagir? E isso se repetindo com cada um dos indivíduos não nos incapacita, como sociedade a reagir a agressões, a ponto de nós mesmos nos agredirmos sem perceber?

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Eu me identifico com os monstrinhos? O.o

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Remédios? Não funciona. Dorgas? Bem, isso aí eu ainda não testei, mas a impressão que eu tenho quando vejo os cracudos na linha do term em Bangu e Padre Miguel é de que não é uma boa.

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Eu pensei em fazer uma conta no 4sqr (sei lá como escreve 😀) só pra fazer check-in em ônibus monstruosos, mas o plano 3G ainda não se encaixa no meu orçamento. O rapaz sentado ao meu lado também tinha um Galaxy 5. Tecnologia nas mãos do povão. Tem que prestar pra alguma coisa útil…

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Se o WI-FI na Avenida Brasil funciona? Well, errrr, bem… não. ¬¬

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ai, meu dedo!

Da série “só quem passa na pele sabe”: Estou usando o corrimão com indicações em braile de início e fim da escada em frente à Prefeitura. É, a espetaculosa passarela nova do Metrô. Meu problema é descer as escadas, é meio difícil com a cabeça imobilizada, olhando para cima. Pois bem, depois de uma semana, a velocidade de descida aumentou, eu segurei o corrimão e fui com tuddo… Até descobrir que o apoio da barra está bem na altura dos dedos. Quem usar como manda o nome, “correr a mão” pela barra, vai tomar uma porrada bonita nos dedos. 

Imagino que quem é projetisrta especializado em acessibilidade deve ter algum tipo de controle, do tipo amarrar a cabeça pra cima ou vendar os olhos para testar se o corrimão está bem instalado. Será que tem?

P.S. – Pô, mandar um cego com décadas de experiência nas ruas detonadas do Rio não vale, ele já estaria acostumado a tirar os dedos da reta de possíveis obstáculos e, na comparação com a passarela de filme de terror que havia antes, ele iria dizer que a nova é espetaculosa…

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burrocracia

Um colega foi a uma repartição pública para saber o resultado de sua solicitação. Mostraram um documento a ele com pendências. Legal, pode tirar uma cópia? Não pode. Tem que abrir um processo pedindo pra tirar cópia, mas pode copiar à mão. São linhas e mais linhas de cálculos. Colega puxa o celular e clic. Senhor, não é permitido fotografar. Queira por favor apagar essa foto.

Ele fingiu que apagou a foto, mas, impossibilitado de conferiri se a qualidade estava boa, resolveu copiar à mão mesmo.

Eu disse que antes de desistir ele devia ter tentado filmar (ela disse que era proibido fotografar…) e por fim ligaria o gravador e leria o documento em voz alta.

É de matar de raiva, né não? 

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Ih, choveu

O cabelo encolheu, a cidade alagou, a praça da bandeira está coberta de lama, a Brasil apesenta um congestionamento monstruoso, a tv acaba de mostrar um ônibus parado na seletiva e seus passageiros se equilibrando no canteiro (passei por essa aventura ontem, com trânsito bom e tempo firme) (um corno bateu na traseira do ônibus, mas o nosso corno estava fora da seletiva). 

Eu ando de Transportes Campo Grande. Se por um acaso tiver ônibus no ponto final, se algum carro sobreviveu à enxurrada de ontem e venha nos buscar, eu não chego ao Centro antes de meio-dia, se ele não enguiçar ou bater…

Está chovendo agora na Zona Oeste. Cai uma pancada, pára, volta a chover.

A região da Tijuca na noite de ontem: aqui

Estudei ali de 96 a 2000 e era assim mesmo. Tive sorte de nunca pegar chuva forte de noite. De manhã, quando a água invadiu a escola, fomos expulsos do prédio (não pela água; pela direção, mesmo). Acharam quen era mais seguro. Atravessei a Avenida Maracanã sem enxergar onde era calçada, onde era rio. Consegui pegar o ônibus logo e, ao chegar em casa, vi na tevê meu colégio debaixo d’água, as telhas do prédio de Desenho dentro da piscina. Os colegas que não se arriscaram na travessia da avenida alagada só chegaram em casa às sete da noite.

Hoje é dia de camisolão e edredom.

 

 

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