Interagindo entre leitores: como fazer certo e errado

Novidade: eu entro para um grupo de discussão e me desentendo com todo mundo 🙂

No grupo de Devoradores de Livros postaram a foto de uma moça lendo no trem. Eu e outras pessoas nos posicionamos, dizendo que a atitude é deselegante, desnecessária e invasiva. Os adeptos dos retratos se defenderam com a questão do direito de imagem (e estão certos, podemos fotografar todo mundo em lugar público); a questão de que a cena não era depreciativa, muito pelo contrário, estavam exaltando o ser iluminado que faz parte do nosso grupo, os seres iluminados que, apesar de brasileiros, gostam de ler; e declaravam a intenção de retirar a imagem na hipótese do fotografado achar a foto na net e pedir a remoção. Com tanta boa intenção, os que eram do contra (eu no meio) só podiam ser chatos politicamente corretos patrulheiros caçadores de oportunidade de meter processo e ganhar dinheiro fácil.

Quando eu digo que é deselegante, desnecessário e invasivo, parece que estou jogando uma crítica pesada sobe o fotógrafo, mas na verdade é questão de empatia. Assim eu me sentiria na condição de fotografada. E ao saber que alguém se sente de um jeito e eu, de outro, eu respeito o sentimento da pessoa porque, sério que tem que explicar?, isso é empatia.

Os fotógrafos de leitores urbanamente móveis disseram que às vezes você quer interagir com a pessoa que tem a mesma paixão e que está com um livro que você ama, mas a abordagem seria muito mais invasiva e poderia ser rechaçada. Então eles capturam aquele momento de amor. Eu sou índio mermo, favor não capture minha alma com essa plaquinha dos infernos.

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Hoje é dia de Troca-Troca de livros na Prefeitura. Lá vou eu com a minha sacola. A quantidade de livros havia diminuído bastante (é a crise, diz a bibliotecária). Parei de um lado do rack e peguei uma entrevista do Carlos Eduardo Novaes. Do outro lado do rack, um rapaz me olha, olha pra baixo, me olha de novo e diz:

– Aqui tem outro do Novaes. Gosta dele?

– GOSTO – Meio assustada com a abordagem, meio declarando amor profundo ao cronista que marcou meus primeiros passos de leitora e escritora.

– Ele é demais. Eu só não pego porque já li tudo dele – E e estende um livro de crônicas. – É muito bom… Já leu Cândido Urbano Urubu?

E eu abro um sorriso de arco-íris pro desconhecido que ama Cândido Urbano Urubu. Faço a troca dos livros, assino o caderno e me despeço do moço lindo.

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Eu já tirei fotos de gente lendo em lugares públicos. Um dos membros do grupo contrários à prática perguntou “Que porra é essa? A foto mostra o quê? Ah, a moça lendo? Noooooossa, que interessante”. Penso o mesmo. Minhas fotos mostram gente lendo livro de 1200 páginas enquanto sobe a escadaria matadora da Prefeitura. Ou pedalando uma bicicleta. Ou fazendo o trabalho de casa no dia da prova:

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Foto tirada durante as gravações do primeiro filme.

Foto de gente sentada lendo? Tá, aqui no Rio, sentar é uma façanha, por isso eu tirei uma selfie sentada no 397 expresso (sentada no 397 é façanha, quando eu digo que era expresso atinjo o nível de credibilidade “assim fica difícil”…)

Mas, gente, ler não é coisa de seres iluminados. A conexão entre humanos, sim, é luz.

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