MPB engajada? Projota.

Você pode clicar aqui e baixar tudo do Projota direto do site dele e ignorar este post, ou pode ler o post primeiro, eu repito o link lá embaixo.

Fato: a MPB definhou após a redemocratização. Como cantou o filósofo Roger Moreira, “como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar?” As ditaduras caíram todas, dos militares ao código de conduta familiar. Aí os compositores vão brigar com o quê? Com a rejeição da amada, com o trânsito ruim, com a destruição do planeta. Vão elogiar o quê? bens de consumo, a vida em contato com a natureza, partes do corpo feminino, as descobertas, de preferência.

A MPB engajada, a música de protesto, politicamente consciente, morreu. Não morreu?

Eu estava pensando nisso ouvindo o disco do Projota. É RAP, e não MPB. Então, antes de elogiar o disco, temos que olhar a etiqueta. MPB é música popular brasileira. Hoje, música popular é pagode, sertanejo, funk, rap e tenho certeza de que há outros ramos mais ao norte do país, mas não vou me atrever a apontá-los – os que chegam aqui no sudeste maravilha são bem apadrinhados, não é que não tenham valor mas eu daqui não vou dizer o que o povão escuta lá. O dia em que eu realizar o sonho de pisar lá (ou aí!) eu ligo o rádio. (parênteses tecnológico – ei, eu tenho o TuneIn! Aceito indicações de rádios!)

Música Popular é música que o povão faz e canta, ora. Aí a gente pode discutir da queda de qualidade musical, da queda no domínio do língua portuguesa, etc, etc. Mas o tema era MPB engajada, não era? Então só acha que ela morreu quem não escuta RAP.

No primeiro disco do Projota (Não Há lugar melhor no mundo que o nosso lugar) tem uma das melhores músicas que ouvi na vida. É música denúncia. Denuncia algo que eu vivo na pele. A música é tão boa que eu quase não ouço porque ela me deixa com muita raiva. Eu quase choro de raiva. Eu escuto música no ônibus, então é sério, dá mesmo vontade de chorar de raiva.

Escutei esse rapaz por indicação da minha filha. Ela escuta um monte de coisa que eu não gosto. Ou seja, absolutamente normal, anormal seria que uma guria de 13 anos gostasse exatamente das mesmas coisas que a mãe de trinta e quase seis. O que a gente faz é intercâmbio. Ela escuta o que eu mostro, eu escuto o que ela me mostra. O RAP não tem muito espaço no subúrbio carioca (domínios de funk-pagode-gospel, gêneros que compartilham o mesmo público!), mas nada como internet+modinhas+adolescentes para me colocar em contato com coisas que jamais passariam na minha frente, de rappers paulistanos a coisas coreanas inclassificáveis. Depois de Projota ouvi outras coisas do gênero (Flavio Renegado, Rael, Criolo, Karol Konká, fui a show do MV Bill), mas nada que chegue perto dele. Ele canta pra mim, ele faz trilha sonora para o meu cotidiano.

Ouvi hoje pela primeira vez a Mixtape Muita Luz, enquanto lia um livro de sociologia. E não é que ele cantou sobre antena de bombril na mesma hora que o livro falava sobre antena de bombril e arranjos técnicos pouco sofisticados ? Se eu fosse professora de sociologia, colocaria as mixtapes do Projota na lista de material didático.

Reprise do link para baixar a discografia do moço: http://www.projota.com.br/index.php/discografia/

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