A manifestação a qual compareci

Por toda a semana o clima esteve ameno, céu limpo, noite estrelada e ruas incendiadas. Ideal para massas manifestantes. No sábado, o tempo virou. Ventania e céu nublado. No sábado, os trabalhadores que acompanharam as manifestações pelo rádio marcaram de se revoltar em seus subúrbios.  Acontece que a raiva represada e a bandidagem espalhada depois dos cercamentos (upps) não se podem controlar. Na sexta-feira os tumultos chegaram. Centro de bairro é centro comercial. Em Campo Grande houve assaltos, lojas saqueadas, os ônibus foram recolhidos à garagem. A polícia partiu pra cima de quem estava na frente. A lógica foi: se bandido segue o ato público, vão fazer manifestação no inferno (contribuição da minha cunhada ao debate). Comerciantes informavam prejuízos e culpavam os atos. Cariocas do Rio-cartão-postal desestimularam manifestações suburbanas. Disseram que todos deviam se agrupar  no Centro pois peqeunos atos periféricos não têm visibilidade, são inúteis e prejudicam o movimento. “Vocês não vão aparecer na tevê”.

Havia o temor de arrastão no calçadão de Bangu, de sermos usados como pretexto e acobertação de bandido. O nome disso é “semana de natal”. A partir do início de novembro é natal, o calçadão é o inferno (então, cunhada?), cheio de gente, cheio de assaltantes. A diferença é que as pessoas de bem estão na rua odiando umas às outras e os comerciantes não publicam #vaipracasa ou #nãovemprarua no face.

Fui, com indignação e cautela. Eu não entraria no Calçadão. Eu iria para ver na rua, todos juntos sem desejo de matar ninguém, os trabalhadores que pagam caro e perdem 4 horas do dia nos piores ônibus da cidade.  Gente que vai e volta em pé, que tem que torcer pra não encontrar chuva, engarrafamento ou tarado no meio do caminho. Gente que põe o filho em escola pública que não ensina e não reprova ou em escola particular que… também não. Gente que se empilha na emergência do Albert Schaitjdshhr (não sei escrever e não vou ao google) ou na do Hospital de Clínicas padre Miguel, igualmente (nem me fale em UPA) Gente que não pode ir ao teatro porque na volta não tem ônibus e tem puxador de carro em cada esquina nas Avenidas brasil e Santa Cruz. Gente que ou é analfabeta funcional e política… ou não é mas é vista como se fosse.

Fui para ver gente pedindo respeito e afirmando o dierito de “se aparecer” (Bechara infarta). Quando eu, marido e filha chegamos  em frente à igreja São Sebastião e Santa Cecília, o carro de som tocava “eu só quero é ser feliz”. Havia um caveirão estacionado na frente do shopping, o que ofendeu algumas pessoas.

caveirão

No largo em frente à igreja, cerca de 500 pessoas. Adolescentes, famílias, cachorrinhos, integrantes do MV-Brasil e muitos cartazes. Um policial passou por nós e nos cumprimentou. Depois, ele deu uma segunda olhada no meu cartaz.

Depois eu explico ¬¬
Depois eu explico ¬¬

As crianças brincavam, alguns jovens bebiam, “supostos” pivetes circulavam enquanto os PMs posavam para fotos abraçando todo mundo, florzinha na mão. Ao lado da igreja, uma pizzaria aberta, com telão na varanda passando o jogo, cercada de PMs de costas para a tevê e ignorada pelos manifestantes. Impressionante.

bang

Até que…

Um fotógrafo gritou no alto do carro de som. Apontou. Desceu, pegou um PM, pontou de novo. Foi com os PMs na direção do calçadão. Pessoas começaram a correr. Os adolescentes combinaram de correr cada um para um lado e correram, sorridentes, levando junto gente assustada. Meninas davam gritos agudos e eram carregadas pelos namorados. Crianças abriram o berreiro.

Eu e marido demos as mãos a nossa filha, andamos até a calçada e sentamos junto à porta fechada de uma loja. Observamos. Ouvimos ao longe som de explosão. Olhando para o lado de Padre miguel, vimos muita gente correndo. Perto do carro de som, os manifestantes pediam a todos que permanecessem sentados e, sobretudo, que permanecessem. Ouvimos tiros. Não, não era de bala de borracha. A PM nos cercou. Eles estavam de costas para nós, de frente para as ruas com tumultos. Eles nos protegeram. Decidimos que era a hora de sair para liberar a polícia pra correr atrás de bandido. Andamos calmamente pelas ruas transversais, sentido Campo Grande, avançamos além do shopping e tomamos um ônibus para casa. Cartazes empunhados o tempo todo!

Minha filha disse que não teve medo, mas não saberia o que fazer se estivesse sozinha. Ninguém devia estar sozinho na rua. Tomara que todos tenham voltado para casa levando pelas mãos o futuro dos próprios filhos e o dos outros também.

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