Reunião de pais

Reunião de pais e responsáveis hoje na escola. Turma do oitavo ano, antiga sétima série Estou irada até agora. Falou-se uma tonelada de abobrinhas, umas idiotices, chamaram minha filha de irresponsável, me chamaram de irresponsável, brigaram por causa da tolerância para entrada, por causa da cor do tênis, por causa do protetor solar. Contaram pontos de provas e trabalhos como quem conta migalhas. Contaram um causo que mais perecia uma piada de humor negro e eu ri alto, e sozinha. Um dos poucos assuntos ligados à sala de aula fui eu quem colocou em discussão. Mas escola e mães compartem a visão de que o subaproveitamento dos livros paradidáticos nos causa um transtorno meramente financeiro. Ano passado, uma mãe pediu pra cortar a lista de 4 para 2 paradidáticos, porque ela gastava dinheiro e o livro não era trabalhado. Eu fiz a mesma proposta absurda esse ano, não por causa do dinheiro (ano passado baixei 2 e compre 2 no sebo por uma pechincha), mas porque eu gostaria muito que os livros fosse trabalhados. Foi o fim da ilusão. A própria diretora me explicou como o livro é tratado em sala de aula.

A professora não pode dizer “hoje vamos ler da página tal a tal”. A professora não pode fazer comentários sobre a história, pois os alunos copiam os comentários dela letra por letra. A professora não pode dizer “vamos falar sobre os personagens” se fulaninho não começou a ler, sicraninho ainda nem comprou o livro, mariazinha ainda está na metade. O trabalho mais importante com o livro paradidático é o preenchimento daquele suplemento de leitura. O paradidático, na verdade, cumpre o papel de obrigar o aluno a ler. E ele que leia em casa. O certo seria que a criança lesse um livro por mês, mas sabemos que isso é dispendioso, então nós garantimos que eles vão ler, mesmo que obrigados, 4 livros. Qualquer coisa além disso é tarefa da família. O aluno que tem família leitora não precisa da escola para se tornar um leitor. Pra falar a verdade, nem todo mundo vai tomar gosto por leitura, gosto é uma coisa pessoal de cada um. E tem mais, sua filha está no oitavo ano. Oitavo e nono são os anos de preparação para os concursos do ensino médio. As crianças não terão tempo de ler. Elas têm que estudar.

Ano passado, a professora de ciências nos pediu para reforçar a leitura das crianças. No meio do ano, fui tratar com ela um assunto de trabalho de casa e ela reforçou a preocupação: “sua filha não me preocupa. Sua filha sabe ler. Eu passo mais tempo ensinando leitura e interpretação de texto do que ensinando ciências”. Hoje ela não falou nada. Falar o quê, depois dessa magnífica “lavada de mãos” da diretora?

 

Ano passado a professora de redação não passou uma redação. A escola da minha filha não ensina nem a ler, nem a escrever. A escola da minha filha confunde capacidade de análise de texto com gosto pela leitura. 

E o tablet, Carol? Hoje eu me convenci de algo que desconfiava lá no fundo: Ele realmente não serve para a sua escola. Ali não há imaginação nem criatividade. 

Eu estou muito triste por essa ser a escola da minha filha. Eu leio fóruns sobre educação, no G+, no Facebook e na Fundación Telefónica, que realiza um simpósio permanente na Espanha e na América Latina, e essa é a cara da Escola em geral. Só que ver essa escola conceito se concretizar como a escola da minha filha dói. 

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