Ontem, ao invés de ir ao cabeleireiro  eu resolvi fazer um quadro. Juntei as ripas de madeira que entulham o escritório, serrei, lixei, preguei, pintei, decupei. Acho que o calorão me ajudou, apesar de quase ter desidratado na hora de serrar, depois a pintura secava muito rápido. E nada pior do que acordar inspirada e não terminar o serviço no mesmo dia. A minha inspiração não costuma durar mais de um dia. Às seis da tarde o quadro estava pronto, fixei os adesivos na cozinha e no quadro e hoje de manhã, pendurei-o.

E aí começa o parágrafo lembranças de natal, porque a casa estava limpa, eu limpei de novo depois do serviço, tomei banho e troquei de roupa, as janelas estão abertas, ventilando o apartamento… e o cheiro de madeira serrada não some. Deve estar na minha cabeça e não no nariz. Meu avô era marceneiro, eu tive o privilégio de crescer dentro de uma marcenaria no meio da serragem, da cola (não faça perguntas), de martelo e pregos. Ele tinha uma serra e uma plaina elétricas, eram duas máquinas enormes acionadas por disjuntores bem acessíveis. Não me pergunte como, meu avô me ensinou a não ligar as máquinas nem me aproximar quando elas estivessem ligadas. Ele trabalhava sem nenhum equipamento de segurança. Usava chinelo e um óculos comum. Eu uma vez pisei num cabo e tomei um baita choque, culpa minha, eu sabia que o chão podia ter pregos (e quando eu fiz o favor de enfiar um prego enorme na planta do pé não foi na marcenaria, foi na segurança do meu apartamento e fui vítima de um brinquedo comprado em loja, não feito pelo vô). o meu “lego” era feito com pedaços de madeira que sobravam das estantes, das camas… Só não era o paraíso por causa da minha alergia, viver nesse mundo me fazia ter crises respiratórias violentas. Acordar com o travesseiro ensopado de sangue era “normal”, eu passava a noite esfregando o meu nariz até sangrar. A minha vó me arrancava da marcenaria e eu me juntava aos cachorros. Um dia eu pisei na fogueira pra ver o que acontecia e, certa vez, fui pegar os ovos das galinhas e desabei no buraco da piscina desativada. O meu paraíso de infância era MUITO perigoso para minha saúde!

Já se foram, o vô e a vó, a marcenaria, a cachorrada, as galinhas, a horta… De vez em quando volta tudo com o cheiro de serragem. E lá em Bangu tem um pé-sujo que vende rosquinha com a massa do biscoito da vó. Cinquenta centavos. Minha vó distribuía quilos de biscoito pela vizinhança e lá em casa tinha biscoito pra semana toda. Eu faço quadro, eu já montei guarda-roupa sozinha (essas porcarias de aglomerado), mas o biscoito da vó eu ainda não me atrevi. Chamam de cueca virada, nome que eu nunca ouvi nos meus primeiros 20 anos, pra mim é biscoito da vó. E, olhando as fotos no google, apesar dos zoio cheio d’água, deu pra ver que ninguém faz a decoração do meio do biscoito como ela fazia. Na verdade, como eu fazia. Vai ver a nossa era daquele jeito porque ela colocava os netos pra fazer.

 

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