Cadê a mãe dessa criança?

Essa semana li coisas sobre maternidade: da culpa que acompanha a mãe que trabalha, da culpa que a mãe que trabalha sente quando não sente tanta culpa assim e da desmistificação do paraíso onde a mãe padeceria com gosto. Claro que houve enfrentamentos entre trabalhadoras e donas de casa. As donas de casa nos acusam de massacrá-las pela escolha que fizeram e nos dizem que temos que queimar no mármore do inferno pois nossa culpa não é um sentimento de opressão, é o resultado de nossas escolhas egoístas. Eu trabalho porque gosto, eu não sou dona de casa fulltime porque não sei fazer isso nem quero saber. Minha mãe trabalhou em casa, fazendo bolo, doces e costurando. O trabalho doméstico era impecável, eu não lavava minhas calcinhas – adoro essa acusação. Vou lavar calcinha pra quê, se tem máquina? Vou sentir gratidão por quê, se mamãe tinha máquina? Quando minha filha nasceu, mamãe disse que durante os 3 primeiros meses eu teria que lavar as roupas da minha filha com sabão de coco líquido no tanque e foi a primeira e última vez que eu encarei um tanque. Eu saía de casa quando mamãe fazia faxina – eu era alérgica. Eu sequer via o trabalho sendo feito. Hoje eu faço, todo mundo em casa faz, o trabalho é muuuuito mau feito e eu reconheço a superioridade de mamãe no trato com a casa. Só rejeito o parâmetro de comparação dela, eu não tenho tempo pra fazer como ela fazia e não ligo. Antes de adoecer, ela vinha aqui em casa e dava faxina, o que me forçava a dar faxina antes, o que me estressava e terminava em brigas terríveis. A idéia de filha bem-sucedida que ela tinha era da trabalhadora que tem empregada. Eu não posso pagar e não quero. É sério. Eu me sinto extremamente desconfortável com a idéia de um estranho dentro da minha casa revirando e limpando minhas coisas. 

Quando leio post de dona-de-casa-com-empregada-digo-secretária, é difícil pra mim não discriminar. Bem, não sendo eu quem paga as contas, tudo bem. E eu consigo ficar quieta, até a hora que me chamam de mãe relapsa.

Mas bem que, ontem, eu perguntei pra uma parenta que está pensando em voltar a trabalhar e enfrenta a resistência do marido: “o que ele pensa sobre fulaninha?” Fulaninha é a filha deles. Ela não respondeu, ela falou sobre a relação dela com o marido. São um casal lindo e feliz – sem ironia! Eles se gostam e se entendem. Ela é minha referência de arrumação doméstica. Quando ela vem aqui em casa eu olho pra filha e marido e eles já sabem: hoje é dia de trabalhar feito escravo e deixar essa casa cenário de novela! É terrível, mas é engraçado, e no final eu fico com a casa mais limpa e arrumada do que o normal. É visita dessa parenta e transbordamento da máquina de lavar, nos obriga a limpar profundamente…

Em um post sobre as culpas das mães trabalhadoras, uma dona de casa disse que o problema era nosso, nós escolhemos. Ela às vezes ficava sem dinheiro pra comprar uma calcinha, mas tinha os filhos sempre debaixo da asa. Foi respondida por mães que precisam trabalhar se não não tem calcinha na gaveta nem comida na mesa. No meu caso, eu trabalho pra comprar as minhas calcinhas e as da minha filha. Eu tenho lembranças de minha mãe me pedindo pra ir explicar a papai que minhas blusas estavam muito velhas e pedindo pra ele liberar o talão de cheques pra mamãe comprar uma ou duas blusas novas. Quando ele estava bem, o talão não saía da bolsa de mamãe. Quando ele não estava bem, ele recolhia talão, cartões e dinheiro. ele não impedia mamãe de costurar ou fazer bolo e esse dinheirinho era dela, mas não era suficiente. Eu tenho marido, nossas contas são divididas, pagamos as coisas de casa e filha e separamos um pouquinho pra uso próprio (quando sobra). Quando aperta pra um, o outro cobre. Ainda assim, o meu ideal de profissional bem-sucedida era exatamente pagar as minhas calcinhas e as da minha filha. Sem o salário dele nós sobreviveríamos. Na pindaíba. Na mesma pindaíba que viveríamos se eu largasse o emprego pra ficar em casa. Como mãe, eu não admito deixar minha filha numa situação ruim sabendo que eu tinha condições de conseguir melhorar. Se não fosse mãe, não consigo imaginar o que raios eu faria em casa o dia todo. A escolha, para mim, foi absolutamente natural.

Offline, ouvi uma conversa atrás de mim na fila do ônibus. “Hoje de manhã soltei os cachorros lá em casa. Mulé me enchendo o saco pedindo tinta de cabelo. Mandei passar titica de galinha! Vai ficar lisinho, pra queê salão? Não fode! Me mato de trabalhar, tem que chegar cedo aqui pra pegar a terceira fila, pega trânsito, chego atrasado, me aborreço no tralho, volto pra casa tarde, cansado, em pé, eu me fodo pra correr atrás e a mulé vem me falar de tinta de cabelo? Mandei passar titica.”

Não é certo dizer que só vale a pena se eu puder pagar secretária do lar. Se eu puder pagar calcinhas e tinturas já é bom. E mãe em casa com marido provedor, como deixei transparecer lá em cima, não é a maior garantia de saúde emocional dos filhos, não. Já testamos isso na família e descobrimos que funciona tão mal quanto (ou pior que) a supervisão materna via google talk ou msn. 

Agora eu tenho que arrancar minha filha da cama, de baixo do edredom e do laptop, arrastá-la para o banheiro pra aplicar o tratamento capilar que deixa os cacho tão lindos. Ah, e esfregar as caracas da semana também.

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