Diferença entre as edições de livros literários

Sim, porque quando googlei “qual a diferença entre edições?” ele me veio com a atualização de assuntos técnicos, especialmente os de tecnologia da informação. Óbvio que o conteúdo de livros técnicos tem que ser alterado de uma edição para outra, se bem que acho que tem o aviso de Revisão ou Ampliação no livro. Mas no caso de obra artístico-literária, há alteração no texto? 

O que diz o site Machadodeassis.net sobre as duas edições de Helena lançadas com o autor vivo: há uma discrepância na cronologia dos acontecimentos do livro causada por defeito da impressora (!!!!!). sendo assim, na passagem do texto para o meio digital, em caso de discrepância, eles compararam outras três edições! Fora isso, o que o próprio Machado escreveu para o lançamento da segunda edição:

ADVERTÊNCIA

Esta nova edição de Helena sai com várias emendas de linguagem e outras, que não alteram a feição do livro. Ele é o mesmo da data em que o compus e imprimi, diverso do que o tempo me fez depois, correspondendo assim ao capítulo da história do meu espírito, naquele ano de 1876.

Não me culpeis pelo que lhe achardes romanesco. Dos que então fiz, este me era particularmente prezado. Agora mesmo, que há tanto me fui a outras e diferentes páginas, ouço um eco remoto ao reler estas, eco de mocidade e fé ingênua. É claro que, em nenhum caso, lhes tiraria a feição passada; cada obra pertence ao seu tempo.

M. de A.

Foi o que eu disse pra filhote ontem (e, desculpem se me gabo de pensar que nem o Machado…). Depois de publicado, o livro não deve sofrer qualquer alteração, nem para adequação de vocabulário, nem ao menos para aliviar os embaraços dos autores (“Agora que já passou um tempinho, que porcaria é essa que eu escrevi?”). O que se pode fazer é a adequação ortográfica. O site descreve o método “no meio do caminho” de adequação da pontuação, que não é nem a nossa, nem a de Machado. 

O livro não pode ser modifcado porque ele é um retrato da época em que foi escrito, eu disse à Filhote.

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Ontem à noite Filhote me diz que a professora de Português declarou que não quer trabalhar com edições do livro extraclasse mais antigas que a atualmente nas lojas.

Quase sofri uma apoplexia fulminante.

A professora disse que há diferenças no texto, no tamanho do livro e no número de páginas.

É, e na capa também, professora. Novos layout e diagramação explicam. Mas, conteúdo do texto? Novidade pra mim!

Em 2011, a escola pediu uma adaptação em quadrinhos de Dom Quixote. Um aluno apareceu com a adaptação em texto. Eu consegui a adaptação de Will Eisner (baixei ¬¬) e comprei ($$$$) a adaptação de Marcia Williams (não é parente do Frank). A professora trabalhou com todos os textos, sem problema. Eu disse a Filhote que nesse caso ela até poderia ter insistido na compra do texto, autor e edição especificados, mas ela não viu problemas.

Aí me vem a teacher nova e diz que tem muito problema sim senhor, e quem tiver a edição antiga só vai poder usá-la com autorização da coordenadora pedagógica. 

Será que eu vou ter que justificar a não-compra do livro novo? Atestado de pobreza? Na verdade, comprei os livros paradidáticos no sebo e usei a economia pra comprar o box da triologia Jogos Vorazes. Vem com um botton! O difícil agora é convencer Filhote a deixar as sagas de lado e se concentrar nos paradidáticos…

Ah, os livros velhos não são um Machado, são um Ruth Rocha, que tá viva, e um Ganymedes José, que já tinha morrido quando eu o li no ginásio. Não tem tanto tempo assim, gente, a ortografia nem era a da época dos meus pais! Claro que todas as idéias, centopéias e européias estão acentuadas, mas isso lá é motivo pra jogar o livro na lata de reciclagem?

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Tem mais por vir. Dos quatro livros paradidáticos, dois estão no kindle. Baixei. Piratas, óbvio, ao que me consta não existe versão digital oficial à venda! Já estava preparada para acessar a Estante Virtual e comprar as edições mais baratas apenas para obter uma nota fiscal e colar com durex nas costas do kindle. Há uma polêmica de que a cópia é proibida, porém a cópia feia por mim, para uso próprio, de conteúdo que eu adquiri não pode ser proibida. Não interessa se eu fiz a cópia antes de ter o original. Se Helena pode ter problemas cronológicos, eu também posso.

Tem uma professora lá no Scribd que publica os pdfs e manda recadinho para os pais: “vocês podem comprar na livraria de sua preferência, podem comprar na Estante Virtual ou podem baixar a cópia pirata do meu site!” A moça está mais preocupada em fazer as crianças lerem do que em ser presa 😀

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Eu tento seguir a recomendação dos especialistas em educação: nunca critique o professor na frente do seu filho. A conversa começou assim:

– Mãe, nós estamos fazendo um abaixo-assinado para trocar a professora.

Ou seja, a parada já está tensa. Não teve como não dizer que eu discordo e não entendo a exigência que ela fez de livros novos. Quando a coordenadora pedagógica me explicar, eu volto aqui e conto.

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Eu não recomendo a cópia pirata de Jogos Vorazes que está na net. Traduziram que nem a bunda deles. Deve haver um motivo para que tradutores se formem na faculdade, né? Pela primeira vez, pensei em comprar o arquivo oficial. Optei pelo papel porque Filhote preferiu, porque a cópia digital custa quase o mesmo que a de papel (se fosse bem mais barata eu pagaria pelas duas!) e também porque os epubs vendidos no Brasil não podem ser lidos no kindle. ¬¬

Já a obra completa de Machado de Assis está revisadinha e disponível legalmente di grátis \o/ 

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