Contos da enfermaria

Conversa entre a enfermeira e a paciente idosa do leito 1.

– Quem é aquele rapaz bonito fazendo exame ali no leito 6?

– Gostou, dona Socorro? É o rapaz do eletrocardiograma. Ele está solteiro na pista, procurando uma velha rica pra casar.

– Ah, minha fiha, eu não quero casar mais, não… Qual é o nome dele?

– É Rapaz do Eletro.

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Enquanto isso, Rapaz do Eletro coloca as paradinhas do eletro no corpo da paciente do 6 e pergunta:

– Já operou?

Meio difícil não perceber os sinais de colocação de 4 pontes de safena, mas ela dá trela pra ele.

– Olha só o que fizeram comigo! Um açogueiro me retalhou. Foi Jack O Estripador.

– Acho que não, olha esses peitos, essas coxas… Não foi o Doctor Ray?

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– Ela passou até batom pra fazer exame. Como é o nome dele mesmo?

– É Ricardo.

– Ah tá. Ricardo Eletro.

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Provavelmente Ricardo Eletro já ouviu essa piadinha antes e riu com gosto só pra alegrar as senhorinhas da enfermaria. 

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A paciente do leito 2, uma menina de 24 anos, passava as noites gemendo de dor e brigando com as enfermeiras que se recusavam a lhe aplicar uma overdose de analgésicos. Até que um dia, ela recebeu sua (quase) OD e dormiu a noite toda. A paciente do leito 6, que saiu do coma induzido meio confusa das idéias, chamou a filha.

– Vai lá ver. Ela morreu. A enfermeira disse que não ia dar remédio porque não adiantava mais e agora ela está morta. Tadinha.

– Não, mãe, ela tá dormindo. – Disse a filha, que depois se deitou cobriu a cabeça com o lençol, deixando uma fresta pra espiar se a menina se mexia. “Geme, só um pouquinho… Só pra manter o hábito…”

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Pela manhã, a paciente do 6 balança a cabeça.

– Ah, minha filha, eu continuo confundindo tudo! Eu disse que a garota morreu. De madrugada, ela levanta e vai fazer escova no cabelo!

A filha balança a cabeça, desanimada. A enfermeira entra no quarto e vai ao leito 2.

– Ô menina, como é que você consegiu fazer escova nesse cabelão naquele banheiro?

A filha desiste definitivamente de tentar delimitar realidade e delírio naquela enfermaria.

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Sabe como os maqueiros chamam o elevador de pacientes? Eles colocam a cabeça junto à porta e gritam: “paciente no oitavo andar!” Depois dessa, você nunca mais vai poder dizer que chama o elevador, você pressiona o botão de parada.

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Cinco e meia da manhã, uma figura diáfana bate no pé da adormecida acompanhante do leito 6 e diz “Ei, vamos?”

A acompanhante pensa “Carajo. Morri”.

Era outra acompanhante que tem medo de andar pelos corredores sozinha, tem medo de elevador e tem medo de dizer para o atendente da lanchonete que quer um café e um salgado. As duas conversam no elevador (meia hora depois, tempo que a assutada levou para desassustar e achar seus documentos).

– Eu tenho que dormir aqui, eu moro muito longe.

– Eu também, sem condições de ir pra casa e voltar. Cê mora onde?

– No Ceará, e você?

– Em Bangu.

Dependendo do trânsito da Av. Brasil, se o avião e o 397 saírem do ponto de origem ao mesmo tempo, a cearense chega primeiro em casa.

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Depois de quatro dias comendo papinha de neném, a paciente do 6 recebeu um prato de frango com feijão e frango desfiado. Comida de verdade. A fonoaudióloga se plantou ao lado dela enquanto ela mastigava e engolia.

– Viu, comi tudo direitinho e não engasguei.

– Não sei, não. Vou pedir a volta da sopa de abóbora. – Olhar fuzilante – Calma. eu só estava testando suas reações emocionais!

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A vida no mundo do crime começa com delitos pequenos e vai se agravando. A criatura começou roubando papel toalha do trabalho para levar para o hospital, depois se enveredou pela obtenção de mercadoria ilegal (sal, açúcar, papel higiênico, detergente, canudinho, frutas fora do cardápio) e terminou comprando e revendendo bagulhos pesadíssimos.

– Um sanduíche caline, por favor.

– Isso não é pra paciente não, é?

– Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao.

– O caline mudou de nome. Agora é minas light: queijo minas com tomate no pão árabe!

Ah, um atenuante.

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