Normal

Larguei a muleta na última sexta-feira. Há dois dias estou indo à fisioterapia sozinha e sem muleta. pego o ônibus, desço no ponto final, caminho até a clínica e na volta… (passo duas horas de um lado pro outro, desviando da multidão no centro de bangu, tentando “resolver os problemas”) 

Minha filha estava preocupada. “Sem muleta as pessoas vão te tratar como se você fosse normal!” Com a muleta, o tratamento não era tão especial assim. Levei esbarrão até de uma véia from the hell que, pouco antes, estava comigo dentro do salão de fisioterapia. As pessoas forçavam a passagem e, ao meu lado, quando viam a muleta, faziam cara de “ah, é por isso que ela é lerda”, e não de “aaah, desculpaê”. O que minha filha quis dizer com “como se você fosse normal” é que eu ainda sou lerda. Ainda tenho músculos e tendões travados, ainda tenho uma fratura recém-consolidada, que se não vai se abrir à toa também não vai resistir a um tropeço ou pisão. E tem o fator psicológico, quanto mais gente perto de mim, mais medo eu sinto, e começo a mancar. Se a muleta não é visível, o andar de pato também não. Eu entro no ônibus colocando os dois pés num degrau antes de passar para o próximo, mesmo assim tive que dizer ao motorista que eu me recusava a desembarcar enquanto ele não parasse o veículo e encostasse rente ao meio fio. Ele queria que eu saísse na segunda pista, no meio do trânsito. (Outros dez passageiros saíram sem problema algum, todos normais). A fisioterapeuta estava no mesmo ônibus e até concordou com minha filha, que para não ser tratada como se eu fosse normal, eu deveria carregar a muleta…

 

Enviado poremail

Anúncios

Um comentário sobre “Normal

  1. O pessoal anda cada vez pior! Não respeitam mais nem pessoas de idades, mulheres com crianças de colo…
    … será que acham que elas são normais?

Os comentários estão desativados.