Dá licença?

Ir à Prefeitura serviu para duas coisas: 

  • A licença foi concedida. 
  • Descobri o motiivo da perícia domiciliar não ter sido concedida: para as assistentes sociais, eu moro em “comunidade”. O endereço não indica isso, mas “os servidores mentem”.

Não moro em favela, mas estou cercada por elas. A distância da minha casa à favela mais próxima é a mesma entre a Prefeitura e a favela mais próxima. Ok, São Carlos tem UPP agora, mas eu me vi debairxo de tiro lá em muito mais ocasiões do que aqui. Estar ou não em favela nessa cidade é irrelevante, ou estamos em uma ou cercados por várias. Não faz diferença se você é uma pessoa que efetivamente se desloca pela cidade, anda em transporte público e não vive em ilhas de segurança artificial, com blindagens e atenção especial da ronda policial e de segurança privada, e afastamento físico e visual de sinais de pobreza, e…

(Falando em atenção especial da polícia: quando vim morar aqui, reparei que a avenida é bem policiada, mas li no jornal um pm do batalhão dizendo que eles não passavam por aqui, por medo. E passavam! No episódio mais perigoso, aconteceu deles darem de cara com um carro cheio de mau elementos, e ambos, pm e maus elementos, acharam melhor atirar. Enfim, eles passam mas preferem dizer que não. Em outras partes da cidade, eles passam e preferem dizer que passam com uma freqüência maior que a verdadeira.)

E se eu morasse na favela? A Assistencia Social da Prefeitura se recusou a atender uma pessoa que tem recomendação médica de permanecer imobilizada e que pertence a uma família onde ninguém passa fome, mas quase ninguém tem carro. Tem uma tia e tem minha ex-cunhada. E as pessoas que têm carteira de motorista estão trabalhando no horário de atendimento da Perícia. 

Ninguém tem obrigação de exigir a presença da assitente social em um local de conflito. No meu trabalho, combinamos com os solicitantes a melhor maneira. O solicitante é o primeiro a avisar quando não podemos entrar. Uma vez, mandei um engenheiro a uma favela muito (muito muito muito) braba que eu conheço muito bem: disse a ele para vestir verde e branco, encontrar o solicitante na rua de acesso, entrar com ele e esquecer os óculos escuros, pois ele corria o risco de ser confundido ou com um policial ou com o professor xavier:

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Nossos engenheiros não costumam se recusar a ir a favela, eles apenas tomam precauções. Tipo, quando eu vou à Zona Sul, território inóspito, hostil e desconhecido, eu fico extremamente temerosa e me encho de precauções, converso com todo mundo, peço guia, estudo mapas. Medo do território desconhecido. No subúrbio, pelo menos, nós não tomamos como ofensa pessoal quando um forasteiro diz que não conhece a distribuição das ruas.

Tem também a dor do apartheid social. E da indignação de cidadã. A criatura, afinal de contas, é funcionária pública municipal e decidiu, baseada em um critério não oficial, e que por acaso estava errado, que ela não precisava trabalhar.

É por gente assim que eu tomo pedrada por ser funcionária. Gente assim faz de nós uma classe vista como parasita, que humilha as pessoas com a segurança da impunidade, a ameaça do artigo sobre Desacato da Lei Penal, que não quer trabalhar e ainda é pago com dinheiro público. 

Eu já escrevi aqui, em dias de agonia, que “hoje eu não sirvo pra servir”, admitindo o fracasso. Só que eu não atendo público. Só que (2), eu não me recuso a atender. Porque no jogo de empurra-empurra, do “não é aqui não”, sempre chega gente na minha mesa pedindo informação. E eu os trato como eu gostaria de ser tratada. Muitas vezes eu não posso ajudar e as pessoas não compreendem, e me devolvem sua frustração, muitas vezes eu me aborreço mas na maioria das vezes eu desconto escrevendo. 

(Tenho uma barra de ferro ao lado da mesa de reunião, mas é só um objeto decorativo, que reflete meu senso de humor e, bem, somos a Engenharia, podemos ter essas coisas. E capacetes também.)

Eu tive que me deslocar 40km de ônibus, pulando num pé só, com uma muleta.Voltei de táxi. Quem eu achei que faria restrição ao endereço de entrega não fez: o taxista ouviu o destino, abriu um sorriso e disse: “ainda bem que eu já almocei!”

O pé não doeu. Mas inchou. A sola do pé, que não tinha se manifestado até ontem, inflou e ficou pressionada contra o gesso. De manhã abri os olhos, dei o comando mental “levantar” e o corpo, moído, não levantou. Meu corpo dói inteiro, menos o pé. E minha velha companheria, a dor na coluna cervical, que tinha rapado fora há um mês, voltou com a corda toda.

 

P.S – “Você é professora?” Ouço muito essa pergunta, talvez porque eu leia muito sobre educação então tenho uns papos estranhos que só interessam a professores, mas esse motivo é novo, apesar de eu já ter conhecimento disso: a Perícia é muito frequentada por professoras…

 

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