Nós pega os peixe, cinco meses depois

Permitam-me suavizar minha opinião inicial sobre a concordância esquisita ensinada no livro “Por uma Vida Melhor”

A princípio, eu disse que se (Filhote) disser “nós pega os peixe” lá em casa, nós mete-lhe a porrada. É só um jeito de falar, que eu não bato, mas dou broncas horríveis. Tão horríveis que eu procuro ajudá-la a evitar as besteiras porque nem eu aguento minhas broncas. E eu posso exigir concordância correta porque eu , meu marido, meu irmão, meus pais, meus tios, estudamos o Bechara e também outros autores mais palatáveis. (Meus avós, não). Não há motivos para não querer que Filhote use a variante da língua que nós usamos, uma mescla da norma culta com a fala da nossa comunidade. O caso da (falta de) concordância é grave. Pronomes reflexivos também são uma dor de cabeça. Acho que passei um ano corrigindo diariamente “eu se levanto”, “eu se ensabôo”, “eu se lembrei”. Consegui, mas a freqüência com que a gente ouve essas coisas faz com que a memória nos traia e a língua reproduza o erro.

 

A questão é: por que crianças e adultos falam assim? As crianças vão falar como elas aprenderam, e não é na escola que aprendemos a falar. Os adultos que as cercam aprenderam a falar assim também. Eles passaram por bancos escolares? As crianças estão na escola, então porque não mesclam a Norma Culta com seu linguajar cotidiano? Por que eles não se convencem de que o domínio da norma é benéfico? E é benéfico?

 

O livro “Por uma Vida Melhor” é direcionado à alfabetização DE ADULTOS. Essa informação me passou batida em maio (vergonha minha). São pessoas que não passaram pelo banco da escola à época correta e que aprenderam a se comunicar e a viver fora da escola. E que admitem precisar conhecer a dona Norma, caso contrário não estariam estudando. O mínimo que a escola pode fazer é respeitar a trajetória dessas pessoas e partir dessa trajetória para levá-las até onde elas podem e querem ir. O livro dizia” você pode falar nós pega os peixe? claro que pode”. Uai, tanto pode que falou, p$#¨%& (eu escreveria “porra” se não tivesse sido fortemente adestrada pela minha mãe desbocada para não falar e escrever palavrão…) O capítulo era uma abordagem inicial sobre níveis de linguagem. Tenho um livro de Português destinado à crianças de 10 anos, bem alimentadas e amadas pelos pais, que aborda o tema de variantes lingüísticas. Não registra a falta de plural, como se essa não fosse a língua das ruas, mas apresenta todo tipo de variante, dos regionalismos ao internetês! (eu posso com isso?)

 

Só não gostei do apelo ao “preconceito lingüístico”. Claro que ele existe. Só acho que escrito assim, os autores estavam fornecendo desculpas. É melhor deixar que os alunos percebam as variantes e que se tornem capazes de usar cada uma em seu devido tempo. Não vale dizer que foi preterido na entrevista de emprego só porque escreveu uma palavra errada, isso é preconceito lingüistico… não é não, seu burro (eu disse isso a meu concunhado) (ex-concunhado).

 

Levei cinco meses para ruminar o assunto e conseguir enxergar os dois lados da “questã”. Ah, lerdeza nada, estamos num tempo que provoca imediatismo e superficialidade. Tudo tem que ser tuitado imediatamente! Eu refleti e acredito que um adulto que decidiu cursar a EJA tem o direito de ter sua trajetória e sua capacidade respeitadas e levadas em consideração. A gritaria dos protetores da Língua Portuguesa, eu entre eles, negava aos alunos do EJA a capacidade de aprendizado e a validade de seus conhecimentos.

 

Eu juro que não li tratados de lingüística nesses cinco meses. Uma das coisas que me fizeram refletir foi quando entrei num fórum de tecnologia, um rapaz fez uma pergunta sobre o sistema operacional do celular dele (modelo do meu celular) e as respostas foram acachapantes. Em português castiço, os usuários com mais conhecimento técnico e mais dinheiro no bolso mandaram que o rapaz jogasse o celular no lixo e depois se atirasse na lixeira. O preconceito aqui não é lingüístico, é sobre o estágio de conhecimento, habilidade técnica e disponibilidade financeira. Eu, como dona do mesmo modelo, me senti impelida a sair do site e não buscar mais informações nem pro meu aparelho nem para os outros, que por acaso eu possa querer no futuro. Não, eu não vou largar os fóruns técnicos, que eu não sou besta. Só não sinto vontade de interagir com quem não tenta compreender que a realidade do outro pode ser diferente da sua própria.

 

P.S – Relendo os artigo agora, vi que aqueles que criticaram o livro na época foram chamados de analfabetos funcionais. Eu critiquei, acabo de rever minha posição mas continuo muito afeita à concordância e à dona Norma, e analfabeta funcional é a putaquepariu 😀

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