Em vez das chamas, o desprezo « Blog do Ico

23ago/118

Em vez das chamas, o desprezo

Burn Baby Burn!

Foi um tempo para recarregar as baterias antes da correria do final da temporada, esse da pausa de agosto da Fórmula 1. Fui para meu retiro favorito, li bastante, corri várias vezes com a Pipoca ao pôr-do-sol, curti a família e os amigos e assisti a bons filmes que passaram na programação da televisão.

Um deles foi o clássico “Fahrenheit 451”, de François Truffaut, baseado na ficção de Ray Bradbury. Foi muito bom rever a história de um futuro imaginário em que o trabalho dos bombeiros é encontrar e queimar todos os livros que existem, numa sociedade absolutamente anti-intelectual.

O impacto ficou ainda maior depois de ler essa notícia em cima dos distúrbios ocorridos neste mês em Londres: enquanto queimaram carros, prédios e saquearam lojas para levar tênis de marca, televisores e iPods, os arruaceiros ingleses deixaram os livros intocados. Não por respeito, mas por desprezo. É como se fosse um objeto inútil, incapaz de lhes garantir o status que queriam obter através dos bens de consumo que levaram para casa.

Não há sintoma maior de uma sociedade doente. As pessoas são bombardeadas diariamente para valorizar um monte de coisas inúteis e a cultura é simplesmente desprezada. Mais vale um Nike do que um Garcia Marquez, uma 20 polegadas do que umas 20 mil léguas submarinas.

No final das contas, Ray Bradbury estava certo quando fez a sua crítica à sociedade de consumo americana no início dos anos 50. Ao invés de nos entregarmos às emoções, contradições e reviravoltas dos livros, tão similares ao que acontece na vida, preferimos viver no mundo maravilhoso das propagandas, na vã esperança que um simples produto nos trará a vida perfeita que vemos nelas. O resultado é uma sociedade de pessoas frustradas por não conseguirem alcançar o que não existe. O que gera cenas como as que vimos recentemente na Inglaterra. Triste demais.

Eu não vou mudar este quadro sozinho, mas faço o meu quinhão. Ler – não regularmente, ler sempre! – é um hábito que levo comigo e um universo do qual jamais abrirei mão. E mesmo aqui no blog, onde predomina a micro-cultura de uma mera modalidade esportiva, a busca é sempre por um enfoque diferente do tradicional “comentário em cima da notícia do dia”.

Seja numa análise do momento, numa história do passado, num vídeo musical, a meta é que acrescentar o mínimo que seja no interesse de vocês por essa micro-cultura. Como se fôssemos parte da sociedade secreta que Guy Montag encontra no final da película de François Truffaut.

Espero que estejam apreciando a leitura.

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