Intolerância

A notícia do dia é sobre o pai que foi brutalmente agredido e teve um pedaço da orelha decepada porque abraçou o filho em uma festa. Os agressores acharam que era um casal gay.

Lembrei do reveillon de 2006/2007, o do show do black eyed peas. Eu e minha cunhada demos as mãos para passar pela rua lotada de gente se nos perdermos uma da outra e alguém gritou: alá mais duas! Tá cheio de sapatão!

Até sozinha eu já ouvi isso. Durante anos usei meu cabelo curto e crespo. Por que eu gosto dele assim. Quando mais nova, eu me esforçava para alisar meu pixaim e deixá-lo comprido para obedecer as convenções sociais e não consegui ficar mais bonita nem ser mais amada por causa disso. A partir da hora em que parei de brigar com o cabelo (e elel, comigo), já senti a auto-estima aumentar. Senti-me tão segura que nem a reprovação dos outros nem me abalava. A a aprovação do cara que eu amo também ajudou bastante. Além do cabelinho, eu usava as roupas adequadas para uma mulher que trabalha na área de engenharia. Na época do estágio, quando nós (estagiárias) implorávamos para ir a campo, um engenheiro me avisou: nunca mais venha trabalhar de vestido. Teve uma época em que não havia um vestido no meu guarda-roupa. A ausência de saia é por outro motivo (bunda muito grande pra usar saia). Eu era uma mocinha do subúrbio, a capital mundial do conservadorismo. Entonces eu sei o que é ser chamada de sapatão. Não é legal se você é e nem se você não é, porque afinal você está sendo xingada sem motivo algum, só por passar na frente do incomodado. Certa vez eu olhei pra uma menina, espantada. Eu passava distraída e pensei: ih, é a Leila! Leila é minha amiga, sabe quando a gente passa distraída pela amiga e só percebe um passo à frente? Olhei e vi que não era. Mas a garota entendeu errado e me xingou muuuuuuito.

Estou pensando que hoje em dia, eu e minha cunhada corremos o risco de apanhar. Daqui a um tempinho, eu e minha filha também correremos esse risco. A intolerância cresce demais. Ninguém está disposto a debater os direitos dos outros nem de se abster de uma discussão que teoricamente não lhe diz respeito (acho que qualquer ameaça ao direito dos humanos me diz respeito). Parece que estamos em pé de guerra.

 

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