Untitled

Voltei lá no domingo à noite. Virei a esquina da Fontineli com a Rua 5, segurando o choro. Alguns passos adiante, o vento bateu no meu rosto trazendo o cheiro da dama da noite. É um dos cheiros do bairro, um dos cheiros da minha infância. Criança, morava num apartamento e nos fins de semana ia para a casa de minha avó, andava pelas ruas à noite, entrava de casa em casa (vovó conhecia todo mundo) e o perfume das ruas e dos quintais era o da dama da noite. Impossível não chorar. Fui até a casa de mamãe, estava na igreja. Fui até lá. Mal consegui olhar para a escola. Parei na rua de costas para o prédio, de frente para a Igreja. Me levaram lá pra dentro. O culto foi celebrado no pátio. Encontrei mamãe, minha cunhada e também a pessoa a quem eu precisava desesperadamente abraçar e beijar. Agarrei-a com toda a força. Ela estava com os olhos cheios d’água e eu disse pra gente parar de chorar, que a filha dela ia me bater. A moça está aborrecida. Tá bom que tem um velório e um circo macabro bem em frente ao seu portão, mas o jeito é esperar. Mamãe está devastada. Todos nós. O pastor não falou da desgraça. Estávamos lá em busca de alívio, conforto. Muitas festas aniversários foram canceladas naquela semana. No fim do culto, as pessoas se arrastaram para casa. Levei mamãe escorada. Ela quis me levar até o ponto de ônibus. Normalmente eu não deixo (pra ver se ela aprende que eu sou grandinha já), dessa vez deixei, desde que fôssemos buscar papai pra levá-la de volta pra casa, e ela ficou muito satisfeita com a idéia. Deixei os dois me levarem pelo braço e me colocarem dentro do ônibus. Moradores e “crias” do bairro, estamos todos feridos, e todos de luto por nossas crianças.

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