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Existem dias que, melhor seria, não amanhecessem. Na véspera, o povo de Realengo fora forçado a inebriar-se de sangue e agora se via no dever de despertar e encarar a ressaca que lhe fora imposta por forças além da compreensão usual. São 6h e, por alguns instantes, da janela do carro que se aproxima de Realengo – percorrendo o viaduto que cruza a linha férrea – o bairro parece definitivamente ermo, como se não fosse, mesmo, amanhecer, ou se os seus habitantes tivessem desistido de acordar.

A “Padaria do Ben” está com os portões cerrados, e a própria luz da manhã reluta em iluminar e colorir esta quase cidadela ornada de casas pacatas, lindos gradeados e quintais habitualmente cheios de vida. Não se vê vulto, não se ouve voz: as palavras vêm só dos cartazes num muro, trazendo lúgubres imagens, tal qual “Pagode Fura-olho”.

Então, de uma esquina, surge, em passos furtivos, uma jovem a caminho da escola. É preciso coragem. De outra esquina, agora em dupla, um menino e uma menina uniformizados caminham trocando ideias. Realengo existe. Resiste. E, enfim, amanhece.

Outros povos mostram a cara. Adultos também, e idosos, que já seguem para buscar o jornal ou o pãozinho quente que, apesar dos pesares, sai do forno. O carro estaciona numa esquina da Rua Piraquara, no quadrilátero que leva à Bernardino de Matos, onde fica o palco do horror. Hora de saltar e seguir toda a gente, para onde quer que ela vá. Uma moto passa veloz, só o tempo de ouvir a mulher na garupa mencionar “a escola”.

A ruela que dá acesso à mesma está fechada ao trânsito (exceto táxis e veículos de imprensa) por cones vigiados por um guarda municipal. Melhor deixar para depois a visita à cena do crime, pois, a essa hora, só se avista, ali, uma floresta metálica de geradores e caminhões com ilhas de edição. Os moradores do bairro não estão ali, mas numa minúscula padaria dois quarteirões adiante com uma banca em frente. Os jornais já acabaram. E uma fila já considerável leva ao balcão da padaria, onde a atendente comenta o acontecido em fragmentos.

Que o assassino vinha comprar pão numa outra padaria não muito longe dali. Que uma vítima pediu à mãe que dissesse ao pai que o ama muito. Que essas palavras ficaram na cabeça dela. “Quanto de pão?”, pergunta um colega que vem ajudá-la no atendimento. Um terceiro funcionário chega à padaria tentando mostrar boa disposição. Até ensaia um sorriso. “Bom dia”, lança no ar, para ver se alguém topa o desafio. Todos respondem. O dia realmente começou.

Um senhor no fim da fila está aborrecido com o clamor. “Tanto sensacionalismo para quê?”, indaga à mulher da frente, que não responde, obstinada com o andar da fila. Um suco. Um pedaço de pão. Vamos em frente. Um velhinho com um dispositivo vocal instalado na garganta entra num pequeno quintal. O comércio começa a abrir.

“O que me angustia é… não sei”, a moça tenta expressar-se diante de uma prateleira de laranjas limas na quitanda que fica ao lado do aviário, cujo guincho do portão se abrindo acorda suas galinhas aprisionadas em pequenas gaiolas, que gritam, animando, angustiosamente, o quadrilátero da morte. Em frente à escola Tasso da Silveira já se faz um movimento. Os policiais confundem-se, enrolam-se, com as fitas amarelas, ao tentar delimitar o espaço de atuação da imprensa. Em vão, pois, quem quer, entra ali: população, curiosos, crianças.”Pode passar, moço?”, pergunta uma senhorinha mais cuidadosa. “Pode, claro”. As fitas se multiplicam, mas a verdade é que não há mais cena do crime: a multidão está mais interessada em imaginar, submergir, reviver, reconstituir, aquilo que sequer testemunhou, mas cujos elementos já estão na internet e na TV.

Um repórter televisivo prepara-se para entrevistar uma senhora com ar resignado. “Mãe de aluno” ele diz para a câmera, no tom impessoal de uma claquete. Nos terraços dos casebres as equipes montam cenários para entrevistas. Não faltam testemunhas, e a impressão, pelos falares da rua, é que não há morador de Realengo que não conheça uma das vítimas, ou, ao menos, parentes ou amigos das mesmas. “O moço quis me filmar, mas eu não deixei”, diz uma menina ao amigo, orgulhosa do interesse que despertou e também de sua recusa. “Mas tinha câmera mesmo?”. “Tinha”. Eles caminham na direção da creche que fica nos fundos da escola, e que está deserta.

No parquinho da creche, junto a balanços, gangorras e um trepa-trepa, dois garis varrem furiosamente as belas flores caídas que cobrem o chão de terra. Aliás, por todos os lados as pessoas varrem, e é difícil não pensar que isso seja algum rito inconsciente para afastar a pesada poeira que resta suspensa, mesmo à luz do sol que começa a aquecer as ruas de Realengo.

Quem não varre conversa em grupos, destacando-se sempre quem tem um trunfo informativo. “Eu vi ele correndo por aqui”. “Eu conheci a Laryssa.” “Tem um que levou um tiro que dava para ver o osso da cabeça”. Ou um discurso inflamado. Como o fuzileiro naval reformado (Realengo é um bairro pródigo em militares) que recorre, enigmático, à Revolução Francesa para expressar seu ponto de vista.

– Cortaram a cabeça de Robespierre. Cortaram a cabeça de Napoleão. Agora tem que cortar a cabeça do mal. Chega de oba-oba! Feche-se a escola, remanejem-se os alunos e chega de render tanto o barulho. Cada um sabe de suas fraquezas. O mal está em nós, na sociedade. Chega disso. Já deu. Dinâmica de grupo coisa nenhuma. Acabem logo com isso e vamos tocar a vida!

Muitos tratam mesmo de tocar a vida. Um velhinho percebe a fuga de dois patos que, segundo informações, moram no aviário, mas vivem soltos. Com um toco à guisa de cajado, obriga as aves a voltarem à casa. Pirulito e Paquita são seus nomes. “Eles se pegam”. O dono do aviário fica feliz em ter o casal de volta. O velho pegunta se ele vai cozinhá-los um dia. Ele jura que não. “Se cozinhar vou encomendar que a alma deles pegue no seu pé à noite”. Eles riem. É possível rir? É possível, como lá adiante, jogar cartas, cobrir a mesa de rua com um pano de feltro? Possível acariciar os cães vadios, aparentemente alheios?

Aparentemente, sim. Nos fundos de uma casa, que se vê através de uma fenda no muro, uma grande roda se forma, fazendo louvores a Deus numa canção entoada coletivamente. Ao fim, uma senhora pede que todos façam o que puderem para ajudar, e, mesmo que não possam, que se juntem aos seus, que cuidem de todos os afazeres, que se amem uns aos outros, e que tenham um bom fim de semana, no qual alguma paz tempere a dor.

Texto de Arnaldo Bloch

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