Cenas de Muriqui

Eu, meu marido, meu concunhado & sua namorada acompanhamos meu irmão e sua esposa à Lua-de-Mel.

De novo: meu irmão e esposa levaram os irmãos e cônjuges para a Lua-de-Mel.

É bizarro e eu não vou explicar mais nada, não adianta explicar, os amigos que não foram, minha mãe e a mãe da noiva não param de chamar de surubão. Mas se era pra ser, não rolou…

Cena 1

Muriqui nem parecia Muriqui. Praia vazia, quiosques sem som nas alturas, água quentinha. Inacreditável. Fiquei bastante tempo no mar (i-na-cre-di-tá-vel), mas no pequeno período que me estendi na areia pra “pegar solzinho” ouvi a conversa da família atrás de mim:

irmão maior pro irmão menor: “Caralho, vai tomar no cu, seu filhadaputa”

mãe: “Ô Ederson, PAROU. AGORA CHEGA! Eu não sou puta.”

irmão: “Mas ele tá de sacanagem comigo…”

mãe: “então xinga ele, ué, chama ele de viado gordo!”

Agora sim, isso sim é Muriqui!

Cena 2

Almoçamos fora, fizemos compras para a janta a ser preparada mais tarde (cachorro-quente…), voltamos para casa e cada um caiu num canto. Na sala, Marido via tv e eu dormia em cima dele. Nos quartos os casais dormiam (eu que não fui lá pra ver). Depois do cochilo pretendíamos ir até a cachoeira, mas a garoa não passava. E foi aumentando… aumentando… um filete de água passou por baixo da porta e correu pra dentro da sala. Depois começou a chover pelos cantos da janela de um dos quartos, acordando um casal, e desceu um rio pela escada do terraço, acordando o outro casal. E passa pano e fecha porta e coloca balde… Até que a água superou a barreira de mármore da porta da frente e uma cachoeirinha de 10 cm de altura se formou na porta. Olhamos pela janela e descobrimos que no quintal havia uma piscina. Levamos as malas para o segundo andar, mas em questão de minutos o primeiro andar foi totalmente alagado. Ao ver a água a menos de um palmo das tomadas a gente se desesperou. Os homens colocaram a geladeira sobre o sofá, cuja base é de alvenaria. Enquanto eles faziam isso, o botijão de gás começou a flutuar. Colocaram o botijão sobre a pia, enquanto as mulheres corriam para pegar bolsa e celular. Saímos da casa com a água alcançando a borda da caixinha de tomada. Do lado de fora a água já estava no joelho. O irmão da noiva disse que mais um centímetro e o carro não andaria mais. Estávamos de carro, mas as ruas estavam muito cheias. Demos uma volta pela cidade para encontrar um jeito de chegar à casa dos tios de Marido, que moram lá, e moram numa rua alta.

Cena 3

Os tios de Marido fizeram piada com os flagelados. Meu irmão anti-social, por exemplo, era a primeira vez que visitava a casa dos meus parentes, a Tia teve que dizer que ele foi arrastado pra lá pela enchente. Os seis refugiados, molhados até a alma, sentamos à mesa, comemos pão com mortadela e bebemos café com leite.

A chuva durou horas. Quando diminuiu, voltamos à casa pra buscar nossas malas antes que anoitecesse. A casa estava alagada e sem luz. O carro do Tio não conseguiu se aproximar. E a chuva voltou a cair forte. Resgatamos as malas, molhadas. À noite, tomamos sopa de ervilha e cachorro quente – a salsicha se salvou, a maionese caiu na água de enchente e o ketchup e a mostarda desapareceram…

Cena 4

Domingo de manhã, uma manhã radiante. Assim é o verão do Sul Fluminense: muito sol pela manhã, chuva intensa e de pouca duração no fim da tarde. O Tio disse que nunca viu chover por tantas horas a fio.

Acordei com a discussão. O cunhado do meu irmão estava indignado porque meu marido roncou e não deixou ninguém dormir, a namorada dele estava indignada porque ele reclamava com ela durante a noite, minha cunhada indignada porque meu irmão colocou algodão no ouvido. Eu fui a última a acordar, disse que não ouvi nada além do barulhinho de garoa. Eles me garantiram que não havia garoado, eu tinha ouvido meu marido roncando no meu ouvido a noite toda. Eles queriam me esganar, marido ficou todo feliz porque o ronco dele soa como orvalho caindo nas flores aos meus ouvidos. Particularmente, eu também fiquei muito feliz de saber dessa minha adaptação 😀

Cena 5

Voltamos à casa da minha sogra. A casa e o quintal estavam secos. Felizmente a água não era barrenta, a sala estava com areia. A área de serviço estava pior – a caixa de gordura transbordou. O esgoto resistiu, ao contrário da porta do banheiro, arrebentada, e do vaso sanitário, solto. Fizemos uma assembléia para saber se limpávamos a casa ou seguíamos para outro lugar. O outro lugar venceu. Eu e marido votamos pelo “outro lugar”, que minha sogra não esteja lendo isso.

Cena 6

Meu irmão ao telefone, falando com nossa tia, irmã de mamãe. Ela nos disse como chegar ao condomínio, disse que havia segurança na porta e que a rua tinha nome de passarinho. Encontramos o condomínio: uma placa com o desenho de um passarinho de um metro de altura, e todas as ruas tinham nome de passarinho. O segurança aparentemente desconfiou de um corsa branco recém-saído da enchente, com seis pobres dentro, na porta do condomínio de luxo, pedindo pra ir até a casa do Tio, que, claro, tinha se esquecido de avisar de nossa chegada.

Cena 7

Minha cunhada, o irmão e a namorada nos olhavam incrédulos enquanto passávamos de carro, procurando o passarinho da rua da minha tia. Mansões se perfilavam. Lembrei ao meu irmão que nós tínhamos esquecido de avisar que eles iam conhecer a parte rica da família, mas que não era pra se empolgar muito porque eles sempre moraram na parte pobre da parte rica. É assim de fato, mas não vou descrever a casinha simples dos meus tios, muito menos colocar fotos, por questões de segurança. Bem, talvez o Orkut da minha cunhada revele uma das 500 fotos que ela tirou no condomínio. É lindo demais.

Cena 8

Eu e marido voltamos pra casa no fim do dia, de ônibus (!!!!), os recém-casados e seus segura-velas ficaram. Com um quarto pra cada casal. E pela hora devem estar terminando o almoço e vão se balançar na rede. Ê vidão!

Estão desde já convocados para a limpeza em Muriqui no próximo fim de semana, junto com minha outra cunhada que vai ter 3 infartos quando souber da enchente, do mutirão de limpeza e da casa da minha tia que ela não conheceu ainda.

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