Notas de leitura – Utopia e Paixão – a política do cotidiano

Li em julho desse ano. Estava (e ainda estou) muito envolvida com a vida escolar da minha filha. Ela vai fazer concurso para o Pedro II. As amiguinhas estão fazndo curso preparatório. Decidi enfrentar o desafio com ela. Quem disse que só passa quem faz cursinho? Ao me envolver com o cotidiano escolar, me senti meio contrariada com algumas práticas de sala de aula, algumas que sobrevivem desde a minha época de primário. Mas o livro vai além dos meanismos de controle exercidos pela escola.

A política do cotidiano

Fui atraída de cara pelo título. A política do cotidiano é a que me interessa. Eu não consigo acreditar que existam soluções para grandes problemas como corrupção ou concentração de renda se primeiro não se resolverem problemas "pequenos" de civilidade e tolerância. Infelizmente isso me põe em classificações bem radicais, como caxias, cdf, caga-regras e hipócrita. Como se eu quisesse que todos seguissem a minha cartilha. Bem autoritário. Mas, na verdade, eu vejo a vida em sociedade como um exercício de convivência, em que todos temos que ceder um pouco para que todos vivam com mais conforto. Traduzindo para o dia a dia: se eu quero viajar num ônibus limpo, eu não posso largar o copo de refrigerante (nem a embalagem de biscoito de polvilho, o papel de bala, o jornal…) no banco ou no chão. E se eu não dou importância a essas frescuras eu continuo não podendo fazer isso em respeito aos frescos que se importam. Parece bobagem, mas são essas bobagens que me chamam a atenção. É nessa esfera que eu posso agir para transformar. Eu não milito por partido ou igreja, mas cuido do meu entorno. Pego lixo e jogo na lixeira na frente do porcalhão. Sinto uma pressão muito grande pra parar de show e ir cuidar da minha vida.

 

Se há um rótulo que eu não quero para mim é o de autoritária. Os autores de Utopia e Paixão definem esse meu "problema" como um exercício de criação e recriação do espaço para a nossa liberdade. E as liberdades individual e coletiva só fazem sentido se combinadas.

 

As  pessoas usam o individualismo como tática de sobrevivência. "Se você não furar a fila, vem outro e fura. Na sua frente. Otária". Eu já penso que se a fila fosse respeitada seria rápida e ninguém precisaria andar com o espírito armado para atacar ou se defender.

 

Óbvio que as regras não são as minhas. São as que atendem melhor o grupo, e que só podem ser justas se os membros do grupo pensam em si e nos outros. Aos "outros" isso soa a hipocrisia. Então tá, penso em mim, eu quero viver num ambiente mais limpo, saudável e cordial e acho que seria bom pra todo mundo.

 

Família, o pilar do autoritarismo


Odeio convenções socias do fundo do meu coração, odeio formalidades. Odiei quando pessoas próximas tentavam esconder que eui casei grávida. Por quê, porra? Casei duplamente feliz, estava casando e ia ter um bebê. Odeio saber que a família pensa que casamos correndo por isso. Foi uma decisão prática, iríamos casar na época do nascimento, então antecipamos porque o bebê não deixa espaço pra mais nada. Papéis assinados, mãe e sogra uniram forças para organizar uma cerimônia religiosa. Eu preferia fugir do altar, mas por que constranger a família e causar brigas? Claro que há limites. Não batizei minha filha nem na igreja católica nem na evangélica. O ramo evangélico não acha tão ruim, eles só se batizam mais velhos. O ramo católico não me perdoa.

 

A proteção familiar é poderosa, indispensável, mas exige o cumprimento de convenções, exige que se assumam papéis. Tudo bem se for meio a contragosto, tem o papél de ovelha negra doisponível.

 

O amor de mãe é mais perigoso que bomba atômica


O texto está um pouco ultrapassado, pois ataca o papel materno sob a ótica da família patriarcal. Essa relação de forças está mudando. Há famílias em que o homem e a mulher compartilham o comando, as tarefas, e ainda levam em consideração a opinião dos filhos. Claro que essa organização familiar ainda sofre ataques, é vista como "errada".

 

É claro que a influência materna é poderosa. Sei que quando digo a minha filha para não entrar nas

modinhas do momento, pelo menos não sem questionar, ela entende como uma ordem. Crianças novas vão fazer o que a mãe ensinar. Se eu oriento minha filha a não se submeter a atitudes autoritárias (oi, professora?) ela sente a pressão e o medo da rejeição.

 

O livro diz que o amor materno é o principal instrumento para treinar o indivíduo a ser submisso ao autoritarismo social (e estatal). Eu posso mostrar para minha filha que a droga da festinha não é importante e não tem nada a ver com meu amor por ela. Mas não vou protegê-la do sofrimento que ela vai passar ao assumoir esse comportamento. Então eu me dobro às convenções. As mães, então, não são só algozes, são vítimas também.

 

A gente vive em busca de um equilíbrio talvez impossível. Viver uma vida inconformada traz algumas compensações, absolutamente prazerosas, e também uma oposição que te leva fácil à fuga via válvulas de escape variadas, legais ou não. Eu tenho que acreditar que minha filha vai se tornar uma mulher capaz de traçar o seu caminho e de resistir às porradas que vêm quando a gente percebe que não pode controlar tudo. Que ela seja capaz de resistir e se resguardar. Essa transformação depende muito da formação que eu e o pai damos. É uma baita de uma responsabilidade. É, não é fácil pra ninguém.

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2 comentários sobre “Notas de leitura – Utopia e Paixão – a política do cotidiano

  1. Muito, muito, muito BOM!
    Nossa, é tanta coisa que nos sufoca, na escola, na rua e – quando procuramos um teórico porto seguro – na família, também…
    Pior é que crescemos ouvindo determinadas coisas, aquelas mesmas da “ordem perfeita” da vida (boas notas, boa faculdade, bom emprego, boa esposa, bons filhos, etc.), que, quando algo sai disso, ainda ficamos perdidos e com sensação de culpa..
    parabéns pelo post!

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