Alma não tem profissão!

Ontem, numa Revista do Globo velha, li que a produtora cultural se definia como uma pessoa inquieta, super-ativa, incansável. Ela dizia ter horror a rotina. E disparou: "não tenho alma de funcionário público".

Por acaso, sou funcionária pública e estou mais do que acostumada com a desconfiança de que não trabalho, ou que quando trabalho é sempre calculadamente aquém do necessário. Mas fora do terreno do meu "não-trabalho às custas do dinheiro do contribuinte", eu não tinha sido provocada. Sim, tem aquela financeira que me chamou de intelectualmente mediana, mas não tem a ver com meu trabalho, foi porque a estou processando. Eles me ofereceram um acordo, mas eu tive que dizer uma frase que sempre tive vontade de dizer: "falem com meu advogado". No caso da produtora cultural, ela já trabalhou com Adriana Calcanhoto. Gosto, mas não sou fã. Da Adriana Partimpim sou superfã, sou-lhe eternamente agradecida, Adriana reina como uma das divas da vida da minha filha. E ver Adriana, e não as pestinhas fabricadas pela Disney ou bandas emo-coloridas, uma celebridade para minha filha é tudo o que eu poderia querer.

Lembrei de uma cena da minissérie Som & Fúria em que a atriz interpretada por Andrea Beltrão esculacha com a agente administrativa da Receita Federal. Cabeças com inclinações artísticas não são compatíveis com declaração de Imposto de Renda, ainda que a funcionária de vida medíocre, vazia e que se aferra à burocracia para ter algo em que pensar não consiga entender. A atriz termina o discurso se definindo como uma artista de teatro – coisa séria, nada de TV – e a funcionária diz que a conhece, pois está acostumada a assistir as peças de sua companhia.

Inacreditável, não? Não é inacreditável que a funcionára vá ao teatro, inacreditável é que ela tenha mantido a calma e ajudado a atriz a juntar seus comprovantes para lançar os valores corretos na declaração. Não sei se a maioria mantém a calma, mas sei que a maioria trabalha além de sua função, ainda que o contribuinte, artista ou não, duvide.

Mas, por favor, não faça o teste da Andrea Beltrão pois desacato a autoridade é crime previsto no código penal.

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Eu tava lendo Lady Rasta agora a pouco. Seus artigos sobre educação de filhos são maravilhosos. Acho que ela baba demais aquele filho dela, mas também acho isso absolutamente normal. Minha filha, por exemplo, é a criança mais incrível que eu conheço 😀

O artigo parecia entrar na minha cabeça e transferir para a tela minhas crenças. Educar dá trabalho. Eu não posso simplesmente deixar minha filha receber o que a mídia chama de entretenimento e cultura, porque é quase tudo superficial, sou eu é que tenho que correr atrás de conteúdo de qualidade, apresentar à menina e insistir até que ela se acostume! Certa vez ela me perguntou, desconfiada, "por que é que você gosta tanto de Palavra Cantada?" Ah, tem que gostar. Meu primeiro tropeço no texto foi na Billie Holliday. Eu não conheço a música (mas sei quem é e já ouvi no Impressões Digitais, onde mais?), não adianta colocar as músicas no mp6 de Filhote e obrigá-la a ouvir porque é boa música. Adriana Partimpim é diva porque quando o disco toca, todos aqui em casa cantamos juntos. Todos gostamos de verdade, ninguém faz pose. Se Filhote lê muito e agora se aventura a escrever resenhas no Skoob (muito melhor que uns marmanjos que não têm a mais vaga idéia do que seja uma resenha) é porque ela me vê, vê que eu sinto prazer e quer me imitar.

Aí eu tropecei na parte em que Lady Rasta e Lord Rasta passeavam em Paris… Isso está totalmente fora do meu mundo. Não invejo, parabenizo e não penso mais nisso. O que eu penso é… Por que raios eu me vejo tantas vezes no meio de gente que não faz parte do meu mundo? Tudo bem, mas onde estão os meus? Por que é que minha filha vem discutir a carga tributária do país comigo – capa da Época da semana passada, ela viu o nariz de palhaço e me pediu para explicar a matéria, entendeu direitinho e quer saber o que nós vamos fazer a respeito – enquanto outras crianças da família rejeitam o discos e livros que eu dou de presente e dançam funk para deleite da parentada?

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Eu também sou inquieta, curiosa, hiperativa, inimiga da rotina, louca por tecnologia, educadora-chefe e ativista cultural do pedaço. Quero ver fazer isso ganhando menos de 3 salários, andando de ônibus (e kombi) e batendo ponto na repartição.

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2 comentários sobre “Alma não tem profissão!

  1. Oi!!

    Só pra dizer que pra onde a gente vai não importa, importante é o conteúdo e a atenção que a gente dá pros filhos. Eu por acaso fui a Paris, mas já fui com ele pro sertão do Alagoas – e nos dois lugares há coisas bacanas pra se fazer. E pelo que vi, vc faz um excelente trabalho de educação com sua filha, parabéns!! Eu sei que dá um trabalho danado…
    E sim, eu sou super babada no meu filho e orgulhosa da relação que tenho com ele, e sei que exagero um pouco – mas se vc conhecesse minha história de vida entenderia direitinho porque tenho tanta necessidade de repetir isso pra mim mesma 800 vezes…

    Beijos!

  2. Uau, visita ilustre 😀

    Eu preciso trabalhar melhor essa contradição. As coisas de que gosto, que me interessam, me fazem entrar em contatos com pessoas de maior poder aquisitivo. O mais complicado eu já resolvi: estabeleço o meu plano de vôo e não comparo “meu mundo” com o dos outros pra saber se estou bem de vida ou não. O problema é que para o meu povo eu sou “besta”.

    Até voltei a ver novela…

    O Léo é o máximo, mesmo! Adoro o método Lady Rasta de educar crianças. É o equilíbrio entre a autoridade e a amizade. E eu já li o post sobre a auto-estima (quase leitura de cabeceira!), e acho que se eu tivesse que pedir a meus pais que fizessem alguma coisa diferente, eu pediria que eles fossem mais meus amigos. Eu sei que não posso ser uma das “Best Friends Forever” da minha filha, mas quero dar a ela o que eu senti falta. Se errar, vou pelo menos errar diferente dos meus pais.

    Beijão, Flavia!

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