Meu cãozinho tá doente

Logo, estou doente também. Doente com o sofrimento dele, doente com a hipótese dele ter levado uma paulada de alguém na rua.Pelo menos a veterinária deixou bem claro: o sofrimento dele não é dor física (nem o meu, doutora). Ele está tomando medicação para dor e para a inflamação da coluna, preventiva, enquanto os resultados dos exames não saem. Minha mãe estava se preparando para empurrar o cachorro num carrinho de compras até a clínica quando um senhor de idade passou pela rua e se ofereceu para levá-los de carro. Assim, do nada. Quase que para não me fazer perder totalmente a esperança no ser humano.

É tanta coisa na cabeça que não consigo escrever nada que faça sentido. A vizinha tá aqui do lado falando com o neto como se ele fosse um cachor… não, uma ratazana. Pra que ele estude e não bagunce a casa. Ela destrata demais esse menino. Ele se retrai. A filha dela, tia do menino, também o destrata, mas como também recebe o mesmo tratamento da mãe, reage, insultando-a aos berros. Domingo à noite uma negona (me perdoe, mas é a melhor descrição, era uma mulher, negra e enorme) esperava o ônibus com seus 4 filhos. Todos arrumadinhos, e assim ela queria que eles ficassem, mas o menorzinho, de dois anos, falou para as irmãs “olha o bicho!” e elas se agitaram no banco, levantaram, se esconderam atrás do poste. A mãe, sem dizer uma palavra, mandou a mão no bracinho do menino. Eu olhei de cara feia, ela devolveu o olhar, e deve ter desistido de me estapear porque meu marido é quase do tamanho dela.

Minha mãe passou muito tempo brigando comigo e com meu irmão por causa dos bichos. Ela não queria bicho em casa. Nós pegávamos na rua, sem perguntar se podia ou não. Ela nos fez devolver alguns, deu outros, uma morreu, uma nós criamos até que morresse e esse último era uma bola de futebol nos pés dos pivetes na rua quando minha mãe tentou repreendê-los, olhou nos olhos do cachorro, passou a mão nele e levou pra casa. Ela entendeu que a sujeira, os pelos, o latido, os sapatos comidos e as meias furadas, tudo isso é compensado pelo bem que o bicho nos faz. No domingo eu vi que ela entendeu, deitada no sofá, rindo do cachorro enquanto ele fingia que estraçalhava sua calça.

Lá vem a vizinha de novo, ajudando o neto a fazer o trabalho de matemática (sim, eu posso ouvir daqui). Ao ver uma resposta errada, ela não diz “vamos fazer juntos essa conta”, ela solta uma risada de escárnio.

Tá, escrever esse post desconexo ajudou a soltar a musculatura do pescoço, que estava me matando, mas agora me deprimi. Vou ter que clicar em publicar, tomar algo (comprado legalmente, com receita!) e ligar o som no volume máximo.

Você não sabe a resposta??? Grita ela. Não sei, Dona Vera, Me faz um favor? morre. Entre você e meu cachorro… Ele é exepcional. Me viu e chorou porque não pode mastigar meu braço e brincar de cabo de guerra com a manta do sofá.

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2 comentários sobre “Meu cãozinho tá doente

  1. Ainda bem que esperei o resultado do exame antes de colocar em prática minha vingança saramaligna. O raio x não mostra lesão na coluna.

    O bicho tá largadão no colchonete. Parece que nem tá mais aí, olhar looonge. Às vezes nos olha diretamente e balança o rabo. E dá bocada nos mosquitos que zumbem ao seu ouvido.

    Passou mal à noite. Soube que meu irmão está treinando para a paternidade: acalmando choro, tirando temperatura e limpando vomitado…

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