Saí de palhaça

Tem gente vestida de tudo por aqui, despida também, mas eu consegui chamar a atenção. Não foi intencional. E não gostei de “causar”. Foi tanta gente me encarando, apontando e dando risadas de escárnio que eu fiquei constrangida. Aconteceu que eu fui à praia de tardinha, só pegar a fresca e encontrei parte da família. Sentei, bati papo e saí com eles ao por do sol. A galera levantou e reparei que ninguém nem olhou pro lixo na areia. Juntei uma parte e coloquei na mureta enquanto procurava um saco. Veio um catador, pegou as latas e deixou o resto do lixo. Continuei juntando, pedi à prima fumante que catasse as guimbas, ao que ela me respondeu enterrando as guimbas na areia e me mandando largar os copinhos, embalagens de biscoito e picolé. Juntei tudo, segurei com uma das mãos e, no calçadão, encontrei as lixeiras cheias, com lixo pelo chão. Fazer o quê? Segui o caminho de casa procurando uma lixeira no caminho. E como já mencionei, causei mais comoção que as menininhas de 10 anos vestidas com lingerie de capeta. Tanto que a parentada me aconselhou a jogar o lixo na rua, que eu já tinha limpado a praia. Até olhei pra ver se o que tinha nas mãos era plástico ou cabeça de peixe podre. Tô falando sério, os caras me apontavam, diziam “olha lá” e riam. Minha sobrinha perguntou o que eu estava fazendo. Minha filha não se espantou e, ao que parece, não percebeu que eu fiquei sem graça. Eu não comecei a catar meu lixo ontem só porque virou modinha ser ecochato, e sempre vi caras de espanto, mas hoje foi demais. Me senti a palhaça. E devo ser, acredito em valores absolutamente desnecessários e tolos para a minha comunidade, e pior, faço-os rir.

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4 comentários sobre “Saí de palhaça

  1. Aline,
    Não fique sem graça, ao menos você fez a sua parte. Se todos fizessem a sua parte, as praias e as ruas estariam muito mais limpas.
    Abraço,
    Leandro

    1. Valeu pela força, Leandro! Eu não vou deixar de fazer o certo por causa dos outros. Escrevi esse desabafo porque sempre leio por aí sobre as pessoas conscientes, orgulhosas, felizes, que catam lixo e reciclam, e que olham os porcalhões com um certo desprezo e superioridade. E na verdade, não é fácil. Não é fácil nadar contra a corrente. Muita gente tenta, percebe a pressão e desiste. Por isso eu escrevi que, dependendo do seu temperamento, muitas vezes a pessoa vai se sentir constrangida. Mas não ´pe motivo para deixar de tomar a atitude correta.

  2. Aline,
    O que importa é o exemplo que vc dá para sua filha, na pratica, no dia-a-dia. Ela achou normal pois já faz parte dos valores de seus valores. Infelizmente só resta lamentar pela falta de consciência e ética das outras pessoas.

  3. Me lembrei de uma coisa que me tira do sério, muito mais que lixo na Praia.
    Praça de alimentação de shopping. As pessoas são incapazes de retirar suas bandejas das mesas, levantam sem pensar no próximo que íra sentar depois.

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