Distraída, eu?

A cena é clássica: a mulher deixa o carro no estacionamento, entra no shopping, dá uma voltinha e na volta não lembra onde deixou o carro. Quando tínhamos carro, Marido me pedia pra memorizar a vaga do Besouro Verde, só pra rir de mim na hora da saída. Não é que eu não me lembrasse da vaga. Eu também não me lembrava do carro!

Ontem eu inaugurei a "integração" bicicleta-ônibus. Verdade que andar de 397 não é mais risco de vida (ou de morte, como queiram), mas tá enchendo a paciência, a gente mofa no ponto, passam 5 paradores, o expresso vem lotado, os motoristas são umas lesmas. Fazia tempo que eu queria ir pedalando até o cenro de Bangu e lá embarcar no S-13. Esperei dezembro, mês de compras de natal e caos em Bangu. Esperei janeiro e seu sol de raio laser. Esperei fevereiro, mais quente ainda que janeiro. Aí a máfia dos ônibus me deu um incentivo: a passagem aumentou e o Bilhete Único é uma enganação. Tratei de tirar o pó da magrela.

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Saindo do Bangu Shopping com minha Bike

Marido diz que eu já saí de casa com medo de perder a bicicleta. Foram 26 minutinhos da portaria do meu prédio até o banco do S-13. Viajar sentada, isso não tem preço… Na volta, fui direto para a frente da Superlar, onde eu jurava ter parado a bicicleta (pra quem não conhece o maravilhoso bairro de Bangu, o calçadão tem vários bicicletários públicos). É claro que a bicicleta não estava onde eu jurava que tinha deixado. Fiquei encostada no pilar da cobertura, me sentindo um verme, ouvindo a pregação do crente no calçadão, falando justamente dos amigos do alheio. Lancei um olhar comprido para os PMs da cabine ao lado do bicicletário. Eu tinha que ir à farmácia e arrastei-me, triste e com os zoio cheio d'água, para dentro do Bangu Shopping. Vi o bicicletário do shopping, o segurança, e me deu mais vontade de chorar.

O caminho para o ponto de ônibus era de novo o calçadão. Pensamento positivo: ou eu achava que sabia onde estava a bicicleta mas não sabia porcaria nenhuma, então devia procurá-la, ou então marido teria levado a magrela com medo da chuva. O bicicletário não é coberto. Se eu chegasse em casa e ela não estivesse na sala, bonitona, aí eu iria à delegacia. Olhei todas as bikes presas. Vi uma bicicleta igual a minha um pouco depois da Superlar. Aproximei-me e vi que a tranca também era igual. Coloquei o segredo e a tranca abriu. Aí eu me convenci: era ela! Eu já tinha passado duas vezes na frente dela…

Marido não sabia se ria ou se me matava. Ele disse que se tivesse retirado a bicicleta ele teria me avisado, como qualquer pesoa sensata. O pior é que naquele mesmo dia ele fora a Bangu e, sem saber onde eu tinha "estacionado", ele encontrou a bicicleta!

Ele terminou o dia dizendo: "e você ainda me diz que é doida por aqueles carros compactos? Vai dirigir uma vez pra nunca mais encontrar o carro!"

Ah, puxa, o problema, como ele bem disse, foi meu medo de parar no bicicletário píblico e ser furtada, eu me sabotei, dando a hipótese por certa e consumada. Risco existe, a qualquer momento, em qualquer lugar, podem levar minha bicicleta, meu tênis, meus óculos, que aliás custam o dobro da bicicleta e sem eles eu não vou nem a pé… O bom é que já passei pela prova de fogo, já levei o susto que tinha que levar, agora é só curtir o caminho, a paisagem, os sons, as cenas impossíveis de se ver dentro de um ônibus, o vento, o sol, a comunicação com outros ciclistas… Só não posso passar direto da minha casa e pedalar até a linha do horizonte…

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