Guerra Polifônica

Ou “os fins justificam os meios? Será?”

Ouvir mp3 player no alto-falante nos transportes coletivos já se tornou corriqueiro. Os donos do aparelho olham pra fora, pela janela, como se não percebessem que é do seu telefoninho que sai a música, ou como se acreditasse que o volume está baixo. Ou então encaram quem os encara, deasfiadores. “Vai fazer o quê?” Isso é outra coisa corriqueira por essas bandas. Todos os dias assistimos a histórias horríveis no telejornal, gente que avança o sinal e ao ver pelo retrovisor que o pedestre está mexendo a boca, volta e o agride. Muitos de nós já passamos por situações parecidas. Então, talvez como tentativa de se proteger, as pessoas estão adotando a postura de ameaçar umas às outras. O olhar que insinua a pergunta “vai fazer o quê?” é suficiente para que os incomodados pensem que não podem deixar os filhinhos órfãos por um motivo tão banal. Quem tem cara-de-pau o suficiente para se portar assim acaba conquistando as vantagens de não ter que se submeter às regras de convivência. E somos diariamente agredidos. São coisas importantes, como ver o sinal fechar e abrir sem poder atravessar porque ninguém, ninguém mesmo, respeita a luz vermelha. São coisas pequenas, como aturar música no alto-falante dentro do transporte público.

Música de igreja, música estilo romanticuzão, música estrangeira de quinta categoria, aquela música que você gosta, todo tipo de música. Todo não! Que tal entrar na kombi com sua filha de 8 anos e ter que ouvir funk pornográfico? Assumindo todos os riscos, inclusive o de ser chamada de moralista e preconceituosa, achei melhor abrir a boca e enfrentar o dono do rádio, na verdade um dvd player com telinha de 2 polegadas. Quem investe num equipamento desses pra colocar na sua porcaria de Kombi e escuta aquela porcaria de música, eu já sabia, eu estava entrando na discussão sem qualquer chance. Mas não quis passar pra minha filha a imagem de que eu aceito qualquer coisa sem ao menos esboçar reação.

Fui chamada de preconceituosa e moralista, pois afinal a música não continha palavrões e o dono da kombi afirmou que ele toca aquela música pra filha dele. Resolvi encerrar a conversa com um “cada um sabe da educação que dá aos filhos” e silenciei. Já tinha reclamado. Minha filha, vendo que a música continuava, insistiu para que eu insistisse. Aí já era demais, eu disse a ela que a conversa já tinha acabado e entreguei-lhe o mp4 com o fone de ouvido. Normalmente, no trajeto curto da kombi, nós conversamos ou lemos, a música fica guardada.

Mas a reclamação surtiu efeito. O motorista deixou tocar mais uma música e depois reduziu o volume. “não tô abaixando porque tu mandô, tô abaixando porque agora eu tô afim de abaixar.”

Essa é a outra face do problema. Culturalmente, por essas bandas, não é bonito reclamar, não é mesmo?

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Nós respeitamos as muitas vezes chatas regras de convivência por pura conveniência. Não é pra ser uma pessoa gentil, educada, agradável (alguns até gostam dessas coisas, mas são animais em extinção). É porque quando todo mundo faz o que bem entende a vida fica insuportável para todos. Baseada nesse conceito, percebi que é sempre UM infeliz que liga o som no alto-falante. Tem o exibicionista do busão do trabalho. Do que adianta comprar um mp12 se ninguém souber? Tem a evangelizadora da kombi. Também na kombi, tem o menino no motorola Q11. Esse eu não agüentei, olhei com o zoio arregalado. Não sei se ele entendeu, mas eu quis dizer “até hoje, pra mim, isso era coisa de xingling player, é a primeira vez que eu vejo um dono de smartphone decente fazendo essa presepada” Preconceituosa, eu sei. Tem os motoristas de kombi. A maioria é de gente boa, eles escutam música romântica, ó que meigo. Eu sempre aguentei o bruno e o marrone, o cara passa o dia dirigindo, eu mesma não encaro trânsito sem meu mp4, por que eu vou querer que ele não ouça sua musiquinha brega? Mas infelizmente tem uma pequena parcela de sem-noção total. Obrigar o passageiro a ouvir música é uma coisa. Obrigá-lo a ouvir pornografia é outra. E lá vem o moralismo de novo, não é? Então tá, cada um ouve o que gosta, cada um na sua, que é muito feio reclamar e mais feio ainda julgar os outros. Quer saber, eu acho que todo mundo tem o direito de ouvir sua musiquinha num volume bem alto. Até porque o fone do meu mp4 tá morrendo e é caro, o fone do smartphone é uma droga, então…

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A playlist “exótica, eu?” tem heavy metal espanhol, pop italiano, cover jamaicano da shakira, rock colombiano, um som muito do  inclassificável brasileiro, salsa, merengue, bachata  e um mantra chinês. Ah, claro, ponto de macumba pra agradar os evangelizadores de plantão.

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Como eu não tenho cara-de-pau, não fiz sozinha. Fiz com meu marido, claro. Entramos na kombi e ao primeiro sinal de “quando eu como uma p*ta”, liguei meu som. Um roquinho irlandês. Marido preferiu tocar “eu me remexo muito”. Os outros oito passageiros e o motorista nos lançaram o olhar “vocês são malucos????” É desagradável, mas… como assim,eu tô fazendo o que todo mundo faz!

Bastou uma música para que o motorista desligasse o som. Imediatamente, eu e marido desligamos também. O santo silêncio voltou a reinar.

Isso não vai funcionar por muito tempo. Eu não tem coragem (cara-de-pau?) de fazer sozinha. E é capaz do motô aumentar o som e a viagem se tornar um inferno.

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Hoje eu ouvi uma edição do podcast Café Brasil e tive mais uma das minhas idéias de jerico. Substituir minha playlist exótica pelas playlists do Luciano Pires. Segue uma de exemplo de playlist para contra-atacar músicas românticas do tipo Balança, Funk do Lobão e outras mais explícitos:

renato mota e patrícia lobato – quem sabe (de Carlos Gomes)

orlando silva – malandrinha

nelson gonçalves – a deusa da minha rua

marisa monte – rosa (de pixinguinha)

Raimundo Fagner – Canteiros (de cecília meirelles)

Sandy – Como é grande o meu amor por você (ai, Dios)

Estou sendo preconceituosa e elitista? É uma atitude igualmente lastimável responder o ataque com um contra-ataque? O que é mais correto? Calar-se, resignar-se, atochar um fone no ouvidinho e ligar o mp4 no volume máximo? Seria uma revolução nada silenciosa se os incomodados reagissem em alto nível? Vai que o ataque de boa música desperte a curiosidade e o senso estético adormecido dentro dos pobres passageiros obrigados a aturar a guerra polifônica?

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Eu não sei o que é certo, só sei o que não é educado, provavelmente continuarei fazendo de tudo pra não incomodar e não reclamar de nada, e o mp4, que está morrendo, será subsituido. E minha filha vai ganhar um de aniversário. Procuraremos nos manter a salvo em nossas bolhas sonoras. Chato é que não poderemos fazer nada quando quisermos ouvir o silêncio.

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O Café Brasil que ouvi hoje falava sobre o empobrecimento da linguagem. O que pesquisei para esse post (e já tá baixando, direto pro mp4!) é sobre MPB, Música Popular Brasileira. Não sou elitista nem preconceituosa, sou é uma grande ignorante. Ali eu aprendo muito. O Café Brasil é um santo remédio para ouvidos maltratados.

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Momento sinceridade: Eu queria era cortar o saco de quem deixa a filhinha ouvir, cantar e dançar funk pornográfico.

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3 comentários sobre “Guerra Polifônica

  1. Onde achei esse blog, meu Deus? E este post? Ah!, lembrei, no blog do meu amigo Groo… rs.

    Tudo bem, tudo certo – (eu até queria ouvir Tanto Mar em alto e bom som, com uma turbinada forte no final. Ok! Isso não vai acontecer, eu sei. Mas, se acontecesse eu queria ficar quietinho no meu canto só olhando as reações).

    O que eu ia perguntar mesmo? Lembrei. Recapitulando, tudo bem, tudo certo, mas que raios de Kombi é essa, meu Deus?

    Abs.

  2. Que legal. Eu te conheço dos comentários do F1 Around. Fico muito d]feliz quando encontro os conhecidos da blogosfera de automobilismo pra falar de outros assuntos. Eu abandonei a Kombi From the Hell graças ao surto de gripe! A saúde, inclusive a dos ouvidos, agradece!

  3. Recebi seu e-mail sobre o comentário que fiz acima. Muito atenciosa. Obrigado.
    Vou voltar aqui mais vezes.
    Abs.

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