No Ponto

O homem esticou o braço para frente, dedinho indicador tremendo com a força que ele fez para esticá-lo. O motorista estranhamente não olhava para o ponto. Estava com a cabeça virada para a esquerda, numa posição nada natural para quem está conduzindo. Parecia estar procurando passageiro na calçada oposta da pista oposta. Não, parecia estar avisando: Não vou parar pra você porque não vou ver você.

O homem só abaixou o braço depois que o ônibus passou por ele. Abaixou o braço, baixou a cabeça. Ele se perguntava o porquê. Não por que o motorista estava olhando pro lado errado. Por que as pessoas fazem isso umas com as outras? Por que as pessoas não se importam em prejudicar os outros? Ele balançava, jogando o peso do corpo numa perna, depois na outra, cansado que estava de esperar de pé por um ônibus que demorava séculos para passar e quando vinha, ia sem parar. Eles sabiam que o ônibus demora. Eu não sou velho nem estudante. Não que isso justificasse, mas para esses o desrespeito é quase obrigatório, quando pegos, eles dizem que é ordem do patrão, ah, e fica por isso mesmo. Cara de pobre, roupa de pobre? Mas aqui só tem pobre! Ruim vai ser quando eu chegar na loja na Zona Sul e tiver que implorar para o atendente me atender. Não, não encontro desculpa, fajuta ou não. Me largou por maldade. Será que as pessoas não sentem? Não se colocam no lugar do outro? A mesma coisa que dói em mim dói em você. Mesmo que eu não te conheça. Você não teve pena da mocinha grávida que foi humilhada pelo sogro na novela, ontem à noite? E o menino que marcou aquele gol que levou seu time à Final depois de 6 anos? Você não se sente grato pelo que ele fez? E o cara que prendeu e matou a namorada de 15 anos? Você não odeia aquele cara? Por que é que a gente vive a vida de gente que não existe e vira a cabeça para ver gente de verdade que existe no nosso caminho?

Ele é arrancado dos pensamentos pela visão do ônibus roxo que se aproxima. Não era o dele. Mas a cena se repete e uma moça é ignorada pelo motorista, que não pára. Ela balançava os braços igual aquele “manobrista de avião” que ele viu na televisão. Os olhares se cruzaram. Para ele era como se fosse com ele de novo. Ela fez um movimento de desdém com os ombros e virou-se para a pista.

Não é possível. Alguém tem que sacudir essa gente, Alguém tem que fazer com que eles sintam o que eles causam. Não sei como eles abafam esse sentimento, que eu pensava que era o normal de gente normal, mas se eles não sentem alguém tem que fazer eles perceberem. Baixou a cabeça de novo. Viu uma pedra. Abaixou para pegá-la, sentiu-lhe o peso. Mais um ônibus vem, não era o dele, mas esse parou. Ele olhou para a pedra. Não era sua intenção quebrar janelas nem machucar ninguém. Ele queria simplesmente atirar a pedra na lateral do ônibus para que ele, esse ser meio veículo, meio motorista, percebesse que não estava agindo corretamente. Só isso. Mas essa pedra é grande demais. Essa pedra quer dizer “eu quero esmagar seu crânio”! Ele jogou a pedra com toda força no chão. A pedra não se partiu. E para abafar a enorme frustração que vinha da pedra, do chão, subia por suas pernas e ameaçava esmagar seu coração, ele correu e embarcou naquele ônibus mesmo, que não era o seu, que ele não sabia pra onde ia, apenas para sair dali e começar a viagem para qualquer outro lugar.

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5 comentários sobre “No Ponto

  1. Obrigada, Ron.
    Bem, eu vi o moço fazendo sinal, vi o motorista olhando para o outro lado. E vi o moço pegando a pedra e jogando no chão. Daí para começar a adivinhar o que passava por sua cabeça (como nosso amiguimnho galvão) foi um pulo.

  2. O pior são as pessoas agirem como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Como se o conjunto motorista/ônibus/empresa não devessem o devido respeito e apoio para os pobres como eles (menos em relação as empresas). Mas, se mobilizar para votar no BBB a população consegue?!? Temos que sair desta passividade e acomodação, AGORA!!!

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