Contos de ônibus

Sexta-feira, último dia da semana, difícil de sair da cama mas pelo menos com a perspectiva de um feriadão. ônibus cheio como todo santo dia, nada demais, nada a que o povo já não esteja acostumado. Ônibus que sai de campo Grande e vai até Bangu pela Avenida Santa Cruz, só depois de passar pelo centro comercial de Bangu é que ele toma a Avenida Brasil. Entra uma senhora com uma criança de três anos. Atravessa o corredor até o fundo do ônibus, acomoda a menina entre as pernas e vai, resignada. Cinco minutos depois, a menina ameaça abrir o berreiro, que quer sentar, que as pernas estão doendo. A senhora, provavelmente a avó, suspira. “ai, Brenda. Tá cheio, Brenda…” Até que ela toma uma atitude. “Vamos descer, Brenda…”

Eu tinha me limitado a encarar o cidadão e a mocinha sentados. Quando eu vi que a senhora ia mesmo descer, perguntei se ela ía até o Centro. Na Avenida Brasil o ônibus entra na faixa seletiva e não pára até o Centro da cidade. Ela disse que sim. Então, era hora de ser mal-educada para obrigar alguém a ser educado.

– Será que alguém poderia fazer a gentileza de ceder o lugar para a moça com criança?

Silêncio. Repeat, please, mas tentando manter o tom de voz de apelo, não de esporro na cambada de filha da puta.

– Alguém pode ceder o lugar para a moça com bebê?

O rapaz do banco mais próximo levantou, sem graça. As pessoas ao redor me responderam.

– Vai pedir lá na frente.

A moça sentou, o falatório não continuou, eu não morri de vergonha. É verdade, os bancos para as prioridades ficam lá na frente, eu não contei quantas cabeças brancas estavam por lá, mas fiquei chateada. Quando sou eu que levanto lá atrás, levanto p* da vida com os folgados lá da frente, mas não deixo de levantar por isso. Se eu não estou passando mal, eu não arranjo uma justificativa para me eximir de praticar um ato bobo de gentileza.

A vida está tão difícil para todo mundo. É ótimo ser agraciado com um gesto de bondade de vez em quando. De vez em quando, alguém se levanta no meio da seletiva e me cede o lugar até o fim da viagem. De vez em quando alguém segura minha bolsa, tirando o peso do meu ombro. É bom. Porra, se é bom receber, por que é tão difícil fazer?

Eu já tentei ligar a tecla foda-se também nesse caso, já me enfureci com a dor crônica que sinto no ombro e passei a não segurar a bolsa de ninguém, mas não consegui continuar com isso. Não é bom, ao contrário, me sentia patética. Não é possível que as pessoas estejam tão frias, tão duras e tão indiferentes assim.

E olha que o ônibus passa pelos painéis do Profeta Gentileza…

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