Carnaval na Terra de Santa Cruz

carnaval!Não tínhamos planos para o Carnaval. Nada de churrasco com piscina na casa de mamãe. Muriqui, nem pensar. Se fizesse sol Muriqui seria a filial do inferno: 30 pessoas dentro de casa, 200 milhões na areia, 500 mil nas filas de quiosques e restaurantes, falta d’água durante o dia, falta de luz à noite. Muriqui no carnaval não é legal. Minha concunhada ligou e disse “então vem pra cá!”.Sexta-feira à noite eu, marido e filha pegamos o ônibus para Itaguaí. Ele devia nos deixar no centro de Santa Cruz, mas nos expulsou bem antes disso porque “o centro está interditado para o carnaval, mermão”. Andamos até lá e descobrimos que ainda não estava. E tome de ligar pro meu cunhado e nada dele atender. Ele deixou o telefone cair no chão, desmontou tudo, ele juntou as pecinhas e esqueceu de ligar o aparelho. Depois de muito tempo ele estranhou nossa demora e descobriu que estávamos sentadinhos no banco da praça.

Chegou ele a bordo do Gol verde, a terceira versão do Besouro Verde, o carro preferido dos irmãos Melo. Hip Hop a todo volume e minha sobrinha gostosinha no banco de trás. Entramos no carro e no primeiro sinal acabou o álcool!

Chegamos à Terra de Santa Cruz já na madrugada de sábado. O sogro do meu cunhado riu muito das nossas desventuras.

dsc01290.jpgMeu cunhado mora em Santa Cruz, zona rural do Rio de Janeiro, último bairro da cidade. Ali se encontra desde favelas muito muito brabas – de vez em quando meu pai volta pra casa porque a escola fechou a mando de algum traficante de 15 anos – até loteamentos de casinhas suburbanas a la década de 60. E muito mato. Densidade demográfica baixa. Ar limpo. Silêncio. Eles moram ao lado do Regimento de Polícia Montada. Lá as casas não são trancadas, mas às vezes são invadidas pelas crianças que brincam livres na rua. Minha filha não disfarçou a surpresa quando minha cunhada disse “vai lá com Juju na padaria e traz pãozinho!” Juju tem 3 anos! E Carol, de 7, não pisa na calçada sozinha…

dsc01267.jpgTinha uma festinha de carnaval na rua. Os vizinhos decoraram a rua, as fachadas, e contrataram um DJ. Ah, essa foi a pior parte. Ele ganhou 400 reais por 4 dias de trabalho e o som era ruim. Tecnicamente falando. Tinha falhas, estava mal equalizado, mal posicionado. Musicalmente, não preciso nem dizer, né? Ouvi Creu o tempo todo.

Mas choveu. A parte da família que estava em Muriqui nos ligava, chamando pra lá, “por que aqui tem um mormaço, dá pra ir à praia”. Como disse meu cunhado, “só se for pra assar em banho Maria”. Choveu todo dia, começava fraquinha lá pelas oito da noite, depois aumentava e o carnaval na rua acabava mais cedo. Na sexta tivemos que esperar a chuva diminuir para secar o rio que passou dentro da sala. No sábado pedimos pizza e comemos à luz de vela.

Domingo de manhã. Eu era a primeira a acordar e fazia o café da manhã. A luz não tinha voltado e eu não encontrei fósforo para acender o fogão, Fui dormir de novo. Às nove horas a luz voltou e eu dei um pulo da cama, corri desesperada pra cozinha, louca por um gole de café.

dsc01285.jpgNo domingo entramos no Besouro Verde e saímos para visitar a família. As tias de Padre Miguel tinham sumido. Será que foram todas para Muriqui??? Não sabíamos o endereço do primo Jerônimo e da prima Marcele. Fomos até a casa da Tetê – a bisavó da minha filha. Marcelo estava trabalhando. Sem saber como voltar para casa. Os ônibus para Santa Cruz não rodam a noite toda. O ônibus para a nossa casa roda, mas sabe Deus aonde ele iria passar, o Centro da cidade estava tomado por carros alegóricos, equipes de TV, foliões… Ele decidiu ir até Bangu e Márcio iria buscá-lo de carro. Meia noite, Marcelo liga, dizendo que tinha acabado de chegar ao Centro do Rio e que iria para a nossa casa. Márcio não deixou. Uma hora da manhã, Marcelo liga, dizendo que estava chegando à Bangu. Eu e Márcio entramos no Besouro Verde. Chovia demais, trechos da Brasil estavam sem iluminação. E como se não fosse aventura suficiente, chegando em Bangu o álcool acabou (sim, o medidor está quebrado). Márcio teve que empurrar o carro enquanto eu conduzia (parêntesis do pânico: Eu não dirijo. Eu entro em pânico assim que ligo o carro.). Marcelo viu lá longe um carro lento, com o pisca alerta ligado e andando em zigue-zague e pensou “só pode ser aqueles dois”, atravessou a pista e correu pra ajudar a empurrar o carro.

dsc01168.jpgSegunda-feira, churrasquinho. Cunhada me perguntava o tempo todo o que Marcelo podia comer. Eu digo que ele pode comer de tudo mas eles não acreditam. Eu digo que nossa comida é normal, mas quando falo de açúcar e sal light, do sal de ervas, dos derivados de leite desnatado, do adoçante, o povo entra em pânico. Eu fiz café sem açúcar e eles acharam a coisa mais complicada do mundo adoçar o cafezinho. Eu disse que faria meu musse de maracujá normalmente, apenas trocando o creme de leite e o leite condensado pelas versões light e cunhada fez uma cara de nojo. Então eu disse que Marcelo está liberado pra comer quase tudo (menos a macarronada divina da cunhada), que não estávamos ali para dar trabalho a ninguém. Ah, o churrasquinho estava divino. Nada como uma casa com quintal.

Pena que cunhado paga a lei da compensação: lugar tranqüilo, casinha gostosinha, filha criada brincado na rua sem medo, vizinhos que se conhecem e se ajudam… Mas a sogra mora na casa de cima. E a sogra é a sogra clássica…

dsc01169.jpgPara as meninas foi ótimo. Carolina é filha única, Juju tem um irmão bem mais velho. Juntamos as duas e elas brincavam, brigavam, saíam na porrada e depois faziam as pazes. Eu e Marcelo voltamos para casa descansados, “desestressados”, com as baterias recarregadas. É muito bom passar o carnaval no interior!

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