Facadas no coração

Artigo orinalmente publicado em Aline Multiply, meu blog sobre F1

O Rio de janeiro continua sendo…

Já tínhamos lido sobre a intenção de se acabar com o Autódromo Nelson Piquet, mesmo assim acho que ao ver na tv a gentalha anunciando os planos com pompa e circunstância a gente sente a ameaça mais real. É o poder do vídeo.

Perder a F1 na minha cidade foi uma facada sentida tardiamente. Na época eu era criança e meus pais jamais se interessaram em ver uma prova. Sabe aquele morrão ao fundo do autódromo? A gente morava do outro lado do morrão. Quando comecei a gostar de F1, ela já estava em SP. Pedi a viagem e o ingresso de presente de 15 anos, inspirada em minha prima, que tinha pedido para ir à Disney. Nem eu nem ela ganhamos nada. Estou até hoje tentando juntar dinheiro para ir à SP.

Ver o autódromo abandonado e com a morte decretada é outra facada. Ver a impassividade da população dói. Ver a euforia tomando conta de conversinhas pelas ruas e pela blogosfera me deixa zonza. Eu convivo perfeitamente com a diversidade de idéias, eu afirmo que o carioca em geral não dá a mínima para automobilismo e nem acho que isso seja defeito. Azar o meu que nasci aqui.

Ver a cidade se envolver em mais um projeto megalômano-esportivo, logo após o embuste do Panamericano e antes da loucura da final da Copa do Mundo é outra facada. Sou louca por esportes (er, por um esporte), mas me parece absurdo que todo o investimento que não foi feito em saúde, segurança e transporte para o nosso bem agora nos é prometido para o bem do evento esportivo.

Facada funda foi a promessa de um novo autódromo em Deodoro ou Santa Cruz. Santa Cruz é o último bairro do Rio, faz divisa com Itaguaí. Deodoro é mais central e está às margens da Av. Brasil. Ambos ficam na gigantesca Zona Oeste da cidade. Onde eu moro, aliás. Em Deodoro construíram algumas instalações para o Pan. Ali existe espaço para um autódromo… da mesma forma que existia espaço para receber as instalações que foram construídas dentro do Nelson Piquet, e ele poderia permanecer intacto. Então essa é a facada que doeu mais fundo: as promessas de um autódromo novinho em folha e da reestrutração do sistema de transporte. A Zona Oeste é populosa, é distante dos centros comerciais e econômicos (e culturais, e da praia também) e os moradores sofrem num transporte indigno. E somos invisíveis. Não somos culturalmente parte do rio de Janeiro. Esse Rio de Janeiro que povoa o imaginário de cariocas e turistas não é o nosso. O Rio não nos conhece, não nos reconhece. Ao ouvir falar de Deodoro e santa Cruz as pessoas descartam imediatamente como lugares distantes e perigosos, mesmo que não exista lá mais pobreza, mais violência do que em outra parte da cidade. Só não há identificação. Na época de estudante na Tijuca, meus colegas me perguntavam se eu morava na Baixada Fluminense. Estamos acostumados a promessas mentirosas, e essas duas me doeram bastante pelo cinismo, por me serem tão caras e sabidamente mentirosas. Um autódromo lá perto de casa e um sistema de transporte decente.

Se os moradores do Rio de Janeiro oficial não concordariam com um autódromo em Santa Cruz (já foi uma gritaria pelo Engenhão em Engenho de Dentro, mas futebol é futebol), os moradores da área também se oporiam à construção. Falta médico, falta equipamento, falta posto de saúde, falta creche, falta professor para as escolas, falta segurança, muitas vezes nos falta garantias de vida, e falta ônibus. O que não faz falta alguma é autódromo.

Para terminar o festival de facadas digno de Agatha Christie, eu chego no trabalho e descubro que minha filha perdeu a vaga na Colônia de Férias de Prefeitura. Um tinha o número 173, eram 200 vagas, e hoje eles me disseram que houve um erro na emissão dos números, que as vagas já tinham acabado muito antes da minha inscrição. Essa doeu mais do que todas as outras! E todas elas foram desferidas pelo meu trabalho. Agora, se eu fosse listar as facadas relacionadas ao meu trabalho em si, o post virava um livro.

Tanto faz se em Deodoro ou Santa Cruz, eu poderia pegar um ônibus na porta de casa e descer na porta do Autódromo. Pena que o autódromo é feito de ilusão. Amo automobilismo, acho que o povo precisa, sim, de um pouquinho de pão e circo, só não merece ser o palhaço da história.

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